Blog do Savi

Aqui é um lugar neutro. Serão discutidos temas como: política, maçonaria, vida, viagens, fotografia, e outros assuntos que poderão vir...Seja bem vindo!

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Local: Florianópolis, Santa Catarina, Brazil

Professor aposentado, com tempo disponível para continuar lendo o que não conseguiu ler na juventude.

novembro 12, 2010

O Espirito da Coisa

Professor, o que é espírito da coisa?
Com essa pergunta, o barbeiro Manuel, morador de um bairro da cidade de João Pessoa, surpreendeu ao senhor José, professor de Filosofia da Universidade Federal da Paraíba. José tentou dar ao barbeiro uma noção da expressão “espírito da coisa”. Para saber em que base dar a resposta à angústia do barbeiro, perguntou ao artista de tesoura, seu amigo, o “porque” do repentino interesse no assunto.
Professor José conhecia o barbeiro Manuel desde há muito tempo. Sabia que na sua barbearia eram repassadas e cruzadas muitas informações da cidade, enquanto ele afiava a navalha ou se inspirava ao som do “chic chic” da tesoura. Os clientes e amigos adoravam uma fofoquinha leve ou gozação de um ou de outro conforme o time da vítima tivesse perdido ou vencido uma partida de futebol. A vida dos ausentes –amigos ou não- era repassada e, até, de forma maldosa com uma boa dose de imaginação.
O barbeiro Manuel começava a ser notado por um partido político pela sua liderança pessoal, pela honestidade com que analisava os problemas do cotidiano da região e, também, por sua sabedoria.
Enquanto isso, o tal de partido, que andava com carência de sangue novo, convidou seu Manuel para assistir a umas palestras e debates de um grupo que andava pela cidade alertando o povo sobre umas coisas erradas que o governo estava fazendo. Na verdade o pessoal do partido já o vinha namorando e queriam fazer dele um político, começando pela casa legislativa do município. Manuel, afinal, era pessoa conhecida de todos e poderia render bons votos.
Um certo dia, de tanto insistir, o barbeiro Manuel atendeu ao convite do amigo e foi à tal reunião. A estrela da festa era um companheiro de São Paulo, levado para João Pessoa para dar uma mensagem ao pessoal da terra. Manuel foi e ouviu, atentamente, palavra por palavra, mas não conseguiu assimilartudo. Ficou consolado, no entanto, quando alguém, do meio da platéia, fez perguntas ao conferencista. Ele também ficara com muitas dúvidas na cabeça, mas não se sentiu com coragem de comentar nem ao amigo Joaquim que estava sentado ao seu lado.
Na primeira pergunta feita ao conferencista, Manuel entrou, mentalmente, na carona. O forasteiro, com palavras bem treinadas, respondeu: “O companheiro não entendeu o espírito da coisa”. Deitou mais meia hora de falação sobre teoria de uma porção de coisas e ninguém mais teve coragem de expor as demais dúvidas. Acabrunhado, Manuel, voltou ao seu salão. Lá, ele sabia o que fazia e entendia do que se falava.
Pois foi nesse meio tempo, ainda com a cabeça atrapalhada, que apareceu professor José e foi aí que ele resolveu tirar as dúvidas. Laçou, a queima roupa, a pergunta ao professor:
-Professor, o que é espírito da coisa?
-Manuel- disse o professor retomando o inicio da conversa e respondendo a pergunta do amigo- como é que eu vou te explicar? Espírito da coisa é aquilo que não foi dito com as palavras mas você entendeu como é. É a essência do que se quer realmente dizer. É o que é mas, não se pode explicar. É aquilo que realmente é.
-É... Manuel ficou na mesma.
-Me dá um exemplo, disse como forma de ajudar ao professor. Bem é...
-Entendi disse Manuel. Quer dizer que se alguém vier aqui na minha barbearia nem precisa dizer que veio para cortar o cabelo. O espírito da coisa é que eu sei que ele faz isso todo mês e ele nem tem que dizer isso.
É mais ou menos isso, Manoel.
Depois de alguns dias, dias quando se dirigia para casa, José passa pela barbearia para ver seu amigo. Para sua surpresa, encontra Manuel com a cabeça ainda mais enrolada. Dessa vez atacou de forma diferente.
- Professor, o que é Sociologia? O que é...
Naquele dia conversaram bastante e agora com mais motivação. Combinaram continuar a conversa sobre esses temas que, para Manuel, nesse momento representava muito. José, a pedido de Manuel, comprou alguns livros de Sociologia e levou para Manuel que prometeu ler antes mesmo da nova reunião do grupo que agora já não contava mais com o pessoal de fora. Marcaram encontros na casa do Professor José para não ter que esperar o dia de fazer serviços na barbearia. Nesses encontros, Manuel ouvia atentamente o que dizia o professor!
No primeiro encontro, já com os livros debaixo do braço, Manuel foi logo dizendo que havia lido as folhas chamadas de prefácio, mas não tinha entendido muito bem e que já havia participado de mais uma reunião do grupo.
-E como é que foi a reunião? Perguntou o professor diante do entusiasmo de Manuel.
Manuel antes da reunião havia anotado algumas palavras e frases e como se sentisse com coragem, atirou na reunião do grupo! O pessoal ficou entusiasmado com o que Manuel disse. Os comentários, depois da reunião, foram de que ninguém perguntara nada porque não queriam mostrar que não estavam entendendo. Com o tempo, Manuel foi ficando com boa fama. Quando as pessoas tinham dúvidas, nas reuniões que se seguiram, consultavam o novo companheiro e ficavam contentes com as respostas. Relatou ao amigo José que as frases do livro tinham resposta para tudo.
Professor José deixou a cidade por algum tempo para fazer, na França, um programa de pós-doutorado. Quando voltou foi à barbearia do seu amigo Manuel e a encontrou de portas fechadas. Procurou saber com os vizinhos o que havia acontecido com seu amigo Manuel. Descobriu -já nas primeiras pesquisas - que ele já era vereador da cidade e que pensava, seriamente, em se candidatar a Deputado Estadual! E queria ir mais longe!

(Adaptação de um caso contado por um professor)

abril 25, 2010

Londres -South Kinsington

Era um dia manhoso de um sábado. Olhando da janela do meu apartamento, no YMCA, para o poente, parecia que ia chover, mas não choveu e deu um dia muito bonito. Os ingleses gostam de falar sobre o tempo e não é sem razão: ele muda com muita rapidez.

Resolvi dedicar o dia ao bairro de South Kinsigton. Comecei por mais uma visita ao Museu de História Natural. Esse museu como muitos outros em Londres, pode ser visitado com freqüência porque sempre há alguma coisa nova para ver, ou, pelo menos um novo arranjo. Fiquei quase o tempo todo que permaneci lá, na área do museu da terra. É difícil descrer. Eu estava em frente a uma enorme escada que dava acesso ao segundo piso onde a escada terminava numa enorme bola azul, simbolizando a Terra. Bem, quando entrei nesse mundo, a impressão que tive foi a de fazer uma viagem ao centro da terra: vulcões, cortes, geração de maremotos, penhascos levando o observador a percorrer, através de fotografias, filmes e efeitos de sons e imagens, virtualmente através de uma visão das energias da superfície e do centro da terra.

No seu interior misturavam-se vozes de narradores com reprodução de sons de marés, de vulcões como se estivéssemos ouvindo a pulsação do Planeta Terra.

Depois de algum tempo, lentamente, começo a deixar o museu. O movimento de pessoas era constante e pessoas de todas as idades e de todas as nacionalidades coloriam as várias sessões do museu. Grupos de pessoas olhando, extasiados, na sessão dos dinossauros ou em umma simulação da selva amazônica num museu em Londres e assim por diante.

Volto à realidade, deixo o museu e começo a caminhar na região. Gosto do astral daquele bairro. Quando passei pela igreja da Imaculado Coração de Maria estava sendo celebrado um casamento. Parei, olhei, entrei e participei da cerimônia. A medir pelos dois Rolls Royce que estavam à serviço para transporte dos noivos, induzia a pensar que se tratava de algum caixa alta casando. De fato, haviam muitas pessoas bem vestidas e um casamento realizado com muita pompa. Fiquei algum tempo, aos fundos da igreja, ouvindo o coral que libertava o pensamento para sonhar um pouco, cruzando os mares, com muita facilidade e libertando-se do tempo. Lembrei-me do gaúcho Lupicinio Rodrigues, quando dizia que “o pensamento parece uma coisa atôa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar...”

Saí sem cumprimentar o jovem casal, mas mentalmente, desejei uma vida longa e feliz, com filhos e uma velhice rodeada de parentes e amigos!

Sai para caminhar sem preocupação de tempo. Procurava um lugar para almoçar e, nesse caso, optei por restaurante onde podia ficar sentado, sem pressa, para poder recuperar as energias. Passo pela Harrod’s. Não resisto a uma entrada e me detenho, depois de percorrer os riquíssimos corredores, na sessão de vinhos. Nem vou citar marcas que anotei, mas vi preços que chegavam a 700 Pounds e mais. Claro, não é uma casa especializada em vinhos e penso existem até vinhos muito mais caros, claro, mas em casas especializadas. Esses estavam protegidos por um armário com portas de vidro sob chave. Os vinhos menos especiais estavam lá, livres para quem quisesse tocar.
Depois do almoço, que naquele dia foi bem tarde, continuei caminhando livremente. A arquitetura daquela região é harmoniosa: prédios bonitos, alguns deles de tijolos à vista, região limpa, muitas flores nas ruas mais movimentadas e um pouco da história recente de Londres.

Museu de História Natural, Victoria and Albert Museum, Imperial College, Royal Albert Hall, Royal Geographic Society... sem contar a beleza da combinação de folhagens às entradas dos prédios, parques, pequenos negócios, fachadas ornamentadas com flores, “pubs” jardins, pequenos recantos que não constam nos guias turísticos. É gostoso andar por lá sem ter que gastar fortunas porque os ingleses não cobram nada para olhar embora não seja muito barato fazer compras.

Quando tomei o ônibus para retornar ao meu cantinho no YMCA, falei com um português que trabalhava num restaurante e que educava seus filhos em Londres. Ele disse que em relação a Portugal, as chances de emprego em Londres são maiores do que na sua terra natal. Ele disse também que não poderia dar, aos seus filhos, em Portugal, a educação e formação que está dando em Londres. Portugal, para ele, só a passeio!

Extraido de Cadernos de Viagem- Londres e Arredores
Hamilton Savi

abril 23, 2010

Agenor do Rio Fortuna

Eu havia retornado de um passeio com Ivone e Hadilton, a localidade de Amola Faca, em busca de um bom ângulo da Serra Geral e, em especial a GURITA, o monte símbolo de Timbé do Sul. Alemão e Estecanela me convidaram para um passeio ao Fundão do Rio Fortuna. Em seguida, no Jeep de Estecanela, fomos em direção à Figueira e, nosso destino final, Fundão do Rio Fortuna. Na viagem, entre uma parada e outra, Alemão disse que queria que eu conhecesse um cara que morava no meio do mato. Não falou muito mais e nem criou muita expectativa. Assim, seguindo estradas que só carros especiais podem transitar, chegamos, finalmente, ao território de um morador que fiquei sabendo ser de um amigo deles de nome Agenor.

Agenor morava nas encostas da Serra da Rocinha, próximo à cidade de Timbé do Sul, numa região conhecida como Fundão do Rio Fortuna, no mesmo município. Agenor tinha a idade que parecia ter: meio século mais 4 anos. Era um homem magro, cor morena, tipo matuto e já não tinha mais todos os dentes. Ao lado de sua casa, construída em madeira, envelhecida pelo tempo, havia um pequeno paiol onde ele armazenava os produtos de suas colheitas: milho, bananas, abóboras e outros produtos que servem para sua alimentação humana e, também, dos animais domésticos que ele criava e que circulam livremente e acomodam-se ao redor da casa. Animais domésticos como: patos, galinhas, porcos convivem numa harmonia dysneana. Um gato preto, sentado à escada da porta frontal, assumia o papel de guardião principal e afastava, também, os ratos que eventualmente se aproximassem da casa. Dois cachorros de caça, já amigos de meus amigos, acompanhavam todos os movimentos, aparentemente indiferentes ao que se passava. Creio que eles perceberam que os amigos de seu patrão se aproximaram, permaneceram calados e sacudia o rabo como manifestação de alegria.

Seu ninho estava implantado no inicio da floresta, ponto final da estrada -pouco mais de um caminho- que ligava a Timbé. Na frente da casa, ao lado de um riacho, Agenor mantinha uma pequena mangueira, improvisada, porém firme, construída com ripas de madeira fina e dispostas horizontalmente para prender os porcos selecionados para abate.

Como ele mesmo nos disse mais tarde, antes de entrar na mangueira, os animais cresciam soltos no mato, alimentando-se do que encontram pelo chão, nas andanças por baixo das árvores, coisas como: bagas de palmito, frutas silvestres, raízes ou mesmo da invasão de algumas roças, quem sabe.

Agenor não estava em casa quando nós chegamos e, desta forma, tivemos que esperar por alguns minutos. Ele foi avisado de nossa chegada pela buzina do Jeep, único veículo motorizado que tinha condições de chegar ao território do Agenor. De fato, não havia passado ainda mais de um quarto de hora quando, quase que misteriosamente, através de um caminho que ligava à floresta próxima a sua casa, Agenor apareceu com um enorme balaio às costas, que na região era chamado de “derla”. A derla é um balaio tipo cone truncado que o trabalhador rural usa para transportar desde milho, ração, frutas e mil coisas às castas. Ele contém duas tiras de couro ou outro material, que prende aos ombros. Agenor portava, ainda, um facão enorme na cintura e trazia, na derla, uma carga de bananas. A derla permite que as mãos fiquem livres. Assim, em uma mão ele ainda carregava uma foice o que o auxiliava para equilibrar-se nas descidas das encostas. Para ajustar o centro de gravidade, Agenor andava um pouco curvado para equilibrar a carga de mais de oitenta quilos de frutas.

Agenor apareceu no Portal da Floresta vestindo uma camisa de malha vermelha, surrada pelo tempo, calçando botas de borracha. A calça, já com muitos rasgos, desde há muito não era lavada e, por isso, era difícil definir-lhe a cor original.

O eremita ficou contente quando viu os amigos. Sem dificuldades, acomodou a cesta de bananas no paiol e colocou-se à vontade. Aos poucos, e de forma descontraída, estimulado por Alemão, seu velho amigo, contou algumas histórias de sua experiência de vida no Fundão do Rio Fortuna, em terras, que desde há muito, são suas por direito de usucapião.

Agenor nunca saiu de lá para conhecer outros lugares. Contam que já foi a Criciúma, mas ele não vê necessidade de sair de seu canto. Fundão do Rio Fortuna é o seu mundo! Não é um mundo pequeno. Dizem ser um território de mais de 300 hectares de terra, o que é muito para a região!

A rede elétrica, dois fios, termina em sua casa e serve para alimentar uma única lâmpada de 15 ou 25 watts para iluminar a sala-cozinha de sua modesta casa. Mal dá para ver a pia de madeira onde ele lava a minguada louça. Próximo a janela da cozinha, um fogão à lenha, com uma panela de feijão cozido no dia anterior, uma espingarda dependurada à parede, uma mesa sem toalha num canto da sala. Na casa, ainda, um modestíssimo quarto, onde estavam empilhados os utensílios de cama e algumas roupas, representam todos os seus equipamentos para seu conforto. É tudo o que ele tinha e, certamente, precisa. Sobre o fogão, para ser defumado com o calor e a fumaça, alguns pedaços de carne de tatu, paca e outros animais que ele mesmo caça. Só caça como ele disse o que necessita para comer. Um pequeno rádio, com as baterias já descarregadas, simbolizava a sua ligação com o mundo civilizado.

Agenor deve acordar, a cada dia, com o ruído de um riacho -o rio Fortuna- que passa em frente à sua casa, e com o canto dos pássaros e dos ruídos da floresta: os animais do dia e da noite. Pela manhã, devem somar aos sons dos animais domésticos reclamando seu alimento. À noite, acompanha a movimentação e comunicação dos animais selvagens, seguindo-os, mentalmente a cada movimento daqueles que ele conhece. Sabe, também, de suas rotinas. Nos dias de neblina, pela manhã, ele se vê envolto em um manto esbranquiçado e observa de forma serena, a sua luta com o Sol. Nos dias de chuva forte, vê o seu riacho transformar-se em rio violento e caudaloso. Sabe, no entanto, que a água escoa rapidamente para o mar e que ele continuará ali, feliz e solitário. Estimulado, conta histórias, as suas histórias!

(Extraido de "Cadernos de Viiagem -Fim de Semana em Timbée do Sul"

abril 20, 2010

D´Ávila

Conheci D'Ávila num restaurante de comida natural, desses a que a gente vai para purificar um pouco o estômago e o corpo para desintoxicar para viver um pouco mais. Lá estava ele: um tipo baixinho, meio gordinho, saudável, aparentemente alheio ao mundo. Falei com ele. Conversamos muito, ficamos amigos à primeira vista. Contou-me seus planos. Queria mudar o mundo com as mãos. Queria sobreviver com o poder das mãos. Queria libertar-se com o uso das mãos. Queria libertar o gênio, o poder que estava retido nas mão da humanidade: o artesanato. Para ele, estava se hibernando, tinha que ser acordado, desenvolvido. Não aquele artesanato de cinto de couro ou bolsinha que existe em qualquer parte. Não, ele queria o artesanato que ajudasse o homem a viver melhor, com mais conforto, com mais criatividade.

D'Avila atropelava-se com a torrente de suas próprias idéias. Era preciso colocar-lhe sapatos de chumbo para ele só sair ao ar depois de muita seleção de energia. Cavava seu próprio espaço para difundir suas idéias em qualquer parte do Brasil. O Grupo "a" daqui, o "b" dali, o "k" de lá e, finalmente, Brasília pedia sua ajuda.

Não havia mais espaço para ele junto ao Governo do Estado a que estava vinculado. Zuleika -diretora do Departamento de Assuntos Culturais- fez um grande esforço para trazê-lo ao nosso convívio universitário. Conseguimos, sob forma de empréstimo, transferí-lo. Em seguida, um decreto do novo governador, exigindo a o recolhimento de todos os funcionários os seus lugares, obrigaria a D' Ávila a desconetar as asas e grudá-las em um cabide do tempo e voltar à sua prisão, numa gaiola que nem sequer era dourada. Todo fim de ano essa angústia o atormentava pois havia a necessidade de movimentar toda a estrutura burocrática para que com ele pudesse conviver mais de perto com o trabalho que ele tanto amava.

Assim, com esse turbilhão de idéias, com esse caminhão de angústias a cada final de ano e agora, também com muito serviço pela frente, com a Nova República, viaja muito nervoso, para o Rio de Janeiro. Lá iria recuperar suas energias, rever seus familiares e voltar para continuar a batalha mas... Não voltou.
Ontem, no final da tarde, ligando o carro para ir para a casa, no último dia útil do ano, quando todos já tinham se despedido, quando muitas pessoas superticiosas -com trajes brancos e amarelo- já não estavam mais lá, chega um telegrama de Brasília. O telegrama comunicava a aprovação de seu tão esperado projeto. Outro -de um alto funcionário- elogiava seu trabalho. Quando já quase não havia ninguém na universidade, quando ninguém mais fazia nada com as mão, Ivo -o chefe do cerimonial- pergunta-me se eu conhecia D'Ávila. Claro que conheço - respondi. Ele acaba de falecer no Rio de Janeiro. Ponto.

D'Ávila nunca falava de seus problemas particulares. Ele sempre preferiu escudar-se no trabalho, falando das coisas em que ele acreditava. Pouco das coisas que fez, muito do que ainda tinha para ser feito. Não me parecia uma pessoa feliz por dentro. Parecia-me uma pessoa nervosa que ficava um pouco mais calma diante de um trabalho com as mão.

Não sei ainda como ele viajou para o outro mundo. Sei apenas que ele acreditava em outro...

É, um instante pode ser uma eternidade. O que é o tempo para nós? Cem anos? Dois mil anos? Quatro mil anos? Dez milhões de anos? No tempo cósmico nosso tempo pode ser uma estrela cadente. No tempo do homem poderemos viver o tempo de uma estrela. Nosso tempo de cada um vivemos o que temos que viver, vivemos o tempo que for o nosso tempo sem que ninguém nos avise quando é que vai terminar ou se já estamos vivendo com um pouco de tempo emprestado.

Às vezes me sinto como se estivesse caminhando dentro de um túnel de vidro, com liberdade de fazer coisas, de ver o que está acontecendo do outro lado, com imagem destorcida, dependendo da posição da lente nos olhos e naquela formada pelo próprio túnel. Se caminharmos para trás veremos o já visto ou realizado. Se caminharmos para frente temos a certeza de que em um determinado momento o túnel acaba e... se cai num abismo.

Os nossos paraquedas construídos com as imagens da ou das religiões, das nossas crenças, poder atenuar o impacto ou nos colocar na mão uma lanterna ou talvez até nos colocar naquilo que sobrou algum código para nos comunicar com os nossos amigos que já se foram, se ainda estiverem por lá, ou com novos amigos. Poderemos ter que viver no inferno de nossas consciências ou no Céu que nos preparamos aqui mesmo, aprendendo a viver em paz com a consciência.

D’Ávila vivia. Só não quis Deus que na hora de viajar, na sua última viagem, no seu bota-fora, estivesse com seus parentes, que com toda a crítica que se possa fazer, são eles que devolvem para a terra a parte material que não pode viajar com a alma. Descanse em paz. Aqui você fez o que pôde. Esperneou, sofreu e amou. Os que ficaram aqueles que estavam mais próximos de ti, tiveram um choque de Ano Novo. É sempre bom para começar algo de novo. Paz na tua nova morada!
Hamilton Savi
30.12.85

Florianópolis, 10 de janeiro de l986.
(manhã cedo)

Amigo Hamilton,

Gostei muito da tua oração fúnebre para o D'Ávila, em particular a tua colocação da mão ancestral do D'Ávila. Teria aparecida uma página a mais sobre a mão. Pois D'Ávila viajou pelo mundo, falava línguas, vira e ouvira muita gente, apreciava como poucos a obra das mão da humanidade.
Hoje a mão desprezada como o foi sempre desde a era de Tubalkaim -o pai ancestral dos ferreiros-. A mão do caçador fora mais potente do que a do agricultor Caim e mais do que a do Tubalkaim e a do Vulcano e Prometeu, Osiris e Imnoter, que Fazoath e Alejadinho. Foi a terrível passagem do paleolítico ao neolítico. O caçador dominou os animais pela azagaia e mais tarde pela flecha, foi a dos nossos índios também. Veio depois os D'Ávila, os fabricantes de artefatos, os artesãs, não. Mão da terra agrícola, mãos do pescador, mãos os dos senhores-escravos da poda das pontes e das catedrais. Mãos dos artesões do bambu e do cipó, mãos do tecido, mãos da terra e do remo, charrua.
O trabalho foi sempre possível, por isso desprezado pois os que não trabalhavam tinham o poder dos que trabalhavam. Isto é ainda assim. Fico estarrecido pelo que D'Ávila e Cascaes mostraram, da pena enorme do poema imenso da mãos nos engenhos de farinha da Ilha de Santa Catarina. Pena enorme é da rendeiras. E o salário do engenho e da renda é a pobreza. O sofrimento, a bucólica e sinistra imagem que busca o turista que vem de longe ver a obra símbolo dos seus ancestrais. Sempre foram escravos os nossos artesões, durante 10 a 12 mil anos que durasse a era do neolítico é era mecânica. É a mão que corta e divide a sociedade, o poder das mãos que lavram a terra, a pedra, o tecido, o fogo e as que lavram papel e a fita, o sulco do disco do computador.
E a mão é também, o pé, o que garante sempre a verticalidade, o pé que libertou a mão, o pé que é então e mãe das mãos.
Quanto a sua oração sobre a morte, o tempo e a passagem para o outro mundo, a morte súbita do D'Ávila, é outro assunto. É o encontro pessoal da vida consciente com a morte, o fim do espaço. É outra dimensão do que falava o D'Ávila.
Eu mesmo o escutei em viagens até Brasília, no ônibus leito, em l983. Levava então seus projetos e tinha a sensação amargo-doce do homem do neolítico, do Tubalkain e do Vulcano. Fascinavam-me a colocação dele, na pura tradição dos companheiros construtores das catedrais. Mas a amargura, também, de ali estão lendo um texto sem trabalho do passado desligado da era tecnológica que estamos vivendo, a da eletrônica, além de estar já desligado da era elétrica e mesmo da do motor à explosão inteira. Ele não via Vulcano no teclado de um computador e no Kokpit do Araão.
Eu disse para ele no ônibus, lá em Belo Horizonte, de que a chance do artesanato era a da sua associação com a tecnologia contemporânea.
Caso não, era um pouco fechar as portas da sociedade aos condenados da terra que hoje são chamados bóia frias, os 90% dos brasileiros. A UFSC trabalha sobretudo para os 10% outros, dizia o D'Ávila não sem certa amarga razão.
Ele queria uma Universidade mesmo, porém a das mãos e dos pés também. Era de outra época, mas seu testemunho, embora soasse como o de uma balde furado, batia de cheio na nossa grande consciência de expulsos recentes da era da mecânica. O Mito do Paraíso perdido, é vivo como todos os mitos da Humanidade.
Ele queria de certo que levássemos conosco pelo menos os instrumentos do nosso paraíso perdido. E é um pouco o que também o Ghandi e o Maotse e tantos outros quiseram e fizeram. Nisto eu também concordo, sob pena de perder raízes e de subirmos pelos ares por falta do lastro de nossas obras -os que nos criaram e geraram-.
Amizades e parabéns
Arlindo Stefani

PS:
D'Ávila fazia parte da Uve/86 fascinado pelas oficinas dos carijós do Pântano Sul e pelos engenhos que nutriram Santa Catarina e seus hóspedes, forasteiros, viajantes e ladrões.

novembro 06, 2009

Jucelino Kubcheck

Hamilton Página 1 6/11/2009
Alfa 12 Juscelino


O OTIMISTA
JUSCELINO KUBSCHECK

Juscelino Kubscheck foi eleito presidente do Brasil para o período de 1956 a 1961. Nessa época, ainda como estudante acompanhava, em Porto Alegre, os debates com meus colegas de pensão e de aula, sobre o presidente sorridente e que representava uma nova promessa para o Brasil. Eu ouvia, em casa, comentários de meu pai, que era leitor da revista “O Cruzeiro” e que apresentava uma serie de reportagens sobre o nascimento político do mineiro de Diamantina. Recentemente, a Rede Globo apresentou em formato de uma Mini-Serie onde mostrou a carreira do político e, mesmo que fantasiando algumas passagens de sua vida pessoal, foi interessante.
Apesar do esforço do Governo Vargas, Juscelino Kubscheck recebeu um país exportador de café, açúcar, algodão, couro e cacau, principalmente. Vargas havia investido em industrialização e criara a Companhia Siderúrgica Nacional e a PETROBRAS. Com elas, tinha a intenção de buscar a autonomia do país, mas as críticas ao seu governo, a posição de seus adversários políticos levou presidente ao suicídio em 24 de agosto de 1954.
Juscelino Kubscheck foi eleito em 1955 com legenda do PSD e PTB que elegeu também como vice o político João Goulart. Os integrantes da UDN, tradicionais anti-Getulistas, tentaram, através de manobras, impedirem a posse de JK. Sua posse, segundo meu pai, foi devida também a honestidade de Lott (Henrique Texeira Lott), então Ministro da Guerra numa data que ficou conhecida como novembrada (11 de novembro de 1955). Mas quem entregou o governo, quem passou a faixa ao presidente eleito foi o catarinense Nereu Ramos que, com o impedimento de Café Filho, que dirigiu o país, como presidente do Senado, no período de 11 de novembro de 1955 a 31 de janeiro de 1956.
Juscelino Kubscheck foi marcado por sua obstinação em construir Brasília, com a intenção de realizar 50 anos em cinco, de acordo com o Plano de Metas de seu governo! O Plano de Metas de JK visava tirar o país do estado de pobreza que se encontrava: PIB de 7 bilhões de Dólares, renda per capitã de 130 Dólares e assim por diante. Contemplava 30 metas, entre elas, energia, transporte, alimentação, indústria, educação e a meta de número 31 que era a construção de Brasília.
O período JK foi o inicio do desenvolvimento e também endividamento do Brasil pela megalomania –como dizem muitos- do faraó brasileiro. Todavia, é visto como um dos maiores presidentes que o país teve. Irradiava otimismo, esperança e alegria de viver!
Assim que cheguei a Porto Alegre, tendo transferido meu titulo de eleitor para a capital gaúcha, votei nele. Política, nessa época, apesar de ser bastante familiar, não estava no rol das minhas preocupações. Tinha que vencer etapas de meus planos de estudos formais e ganhar tempo. E isso eu estava fazendo.
Mas era impossível ficar alheio a uma época tão marcante. Falando com o pároco de Gravataí, onde meu irmão Hadilson estava morando em troca de financiamento de seus estudos, ele me falava que o Brasil tinha optado por um sistema de transporte de rico. Era inadmissível, para ele, que um país cortado por rios navegáveis, com uma costa de mais de 8.000 quilômetros, com uma extensão territorial dessa grandeza, optar por dar preferência ao transporte rodoviário. O Padre dizia que isso era um absurdo. Eu ouvia os comentários dele quando ia visitar meu irmão em Gravataí, há poucos quilômetros de Porto Alegre e ficava pensando sobre sua visão que à época eu apenas concordava. Nunca me saiu da cabeça até que, mais tarde, já como estudante de engenharia, avaliava melhor a sua visão e a considerei, em parte, correta. Entendi, também, que a questão do transporte ferroviário não era uma questão tão simples assim, mas que algum esforço tinha que ser feito.
Lembro com nitidez cristalina, ainda na praça XV, ponto de encontro dos bondes que serviam à cidade de Porto Alegre, onde fazíamos as baldeações ou usávamos para chegar até o centro da cidade, o aparecimento do primeiro veículo nacional: a Romiseta (Romi-Isetta). A Romiseta, como ficou conhecida era um veículo com motor de lambreta, com quatro rodas: duas com mais próximas no eixo traseiro e duas mais afastadas na dianteira. O veículo tinha espaço para duas pessoas e uma porta frontal.
O projeto era um projeto italiano, que desenvolvia uma velocidade máxima de 70 quilômetros horários e fazia 25 quilômetros com um litro de gasolina. O mais importante do veículo Romiseta foi e de ter dado inicio a indústria automobilística do Brasil. Lançado em São Paulo, em 1956, recebeu apoio do Governo de Juscelino Kubscheck, mas foi exatamente um de seus decretos, o decreto que cria o GEIA (Grupo Executivo da Indústria Automobilística) que ao definir os parâmetros dos automóveis no Brasil, de inspiração estrangeira, acabou desestimulando a sua fabricação em nosso país tornando-a pouco competitiva. Em seguida começaram a aparecer os veículos da DKV (Auto Union) e da VW. Foi uma pena porque esse veículo econômico continuou sendo fabricado em diversos países europeus e, recentemente, ainda o vi rodando na Índia. Houve ai uma contradição muito grande. Juscelino Kubscheck entrou triunfalmente em Brasília, em uma Romi-Isetta como símbolo da industrialização do Brasil, depois de ter saído do Rio de Janeiro, rodado cerca de 7.000 quilômetros, de ter sido recebida simbolicamente por Leonel Brizola como prefeito de Porto Alegre mas...acabou sendo derrotada pelo capital estrangeiro que influenciou o conteúdo do decreto que criara o GEIA.
Com essa historia de 50 anos em 5, apareceram os primeiros sinais da inflação. Comentávamos com nossos colegas na Universidade, na pensão, o aparecimento, como cogumelos, os prédios no centro de Porto Alegre. A opinião generalizada era de que como o dinheiro volatilizava rapidamente, um dos grandes negócios para manter o seu valor investindo em imóveis e, com isso, cresciam os prédios no centro da capital. Daí da Praça XV, ponto de passagem obrigatória, contavam-se os prédios que iam mudando a paisagem. O país e, as cidades, estavam mudando.
A construção de Brasília era outro motivo constante –tanto como futebol- motivo de discussões: havia os prós e os contra. Jânio Quadros, no final do mandato de Juscelino Kubscheck batia forte na corrupção que diziam existir no modelo de roubo que hoje chamamos de superfaturamento.
Jânio Quadros acabou vencendo as eleições, usando como símbolo uma vassourinha para varrer a sujeira e corrupção. Ainda tenho guardado uma ampola, tipo ampola de injeção, com uma vassourinha metálica dourada como símbolo limpeza que ele queria fazer. Com tudo isso, Brasília foi construída, Jânio Quadro venceu, mas renunciou. Sua atitude levou o país a uma de suas maiores crises com a tomada do poder pelos militares para evitar que caísse nas mãos dos comunistas que era o modelo visto como salvador do mundo. Naquele momento, pelo exemplo da URSS e da China de Mão Tse Tung e de Cuba –mais tarde- com apoio da URSS.
Na viagem de estudos do nosso grupo de engenheiros eletricistas de 1965, depois da visita à usina de Três Marias, em Minas Gerais, nos decidimos passar um dia em Brasília para conhecer a nova e tão falada capital. Ela havia sido inaugurada há poucos anos e nós saímos de lá impressionados pela grandiosidade e os espaços vazios.
O período JK foi marcado por muitas críticas. Pode ter dado inicio a um processo de endividamento, mas foi um governo ousado, otimista e que estava sempre na mídia. Os seus feitos inspiravam o cantor e humorista Juca Chaves a fazer fortes críticas ligadas ao hábito de voar, voar....

Hamilton Savi

(Da serie Mundo que eu Vi)

novembro 05, 2009

Impressões de Viagens a Alemanha

Mais um Giro pela República Federal da Alemanha. Dessa vez, o convite para ir à RFA, foi feito pelo Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico, DAAD, do Governo Alemão. O evento determinante para o referido convite foi realização de mais uma reunião da Comissão Mista teuto-brasileira, uma rotina diplomática que ocorre alternativamente num e noutro país. Em 1989 a reunião foi realizada em Bonn, capital da então República Federativa da Alemanha.
Para aproveitar a estada naquele país, o DAAD sugeriu contatos com setores que, direta ou indiretamente, se relacionam com o Brasil, dentro do acordo que a CAPES, do Ministério da Educação que têm, como interlocutor na RFA, o Programa Alemão de Intercâmbio Acadêmico, o DAAD. O objetivo dessa reunião foi dar seguimento a uma reunião de rotina denominada de “comissão”e que ocorreu entre as entidades brasileiras que participam no intercâmbio com a RFA. Na prática, o interesse da CAPES, se traduzia em ajustes anuais do programa de bolsas concedidas pelo governo alemão para candidatos a doutorado, troca de professores e de especialistas no âmbito das universidades envolvidas de um e do outro lado. Havia, entre os dois países, uma longa tradição de cooperação nessa área de formação de cientistas. Nessa época eu ocupava o cargo de coordenador de Cooperação Internacional.
Sair do Brasil, na situação em que o país se encontrava, (dívida externa de 110 bilhões de dólares e 46% de inflação mensal) e fim de governo, não era uma situação confortável. Mesmo assim, o meu pedido formal de afastamento do país -uma rotina administrativa- foi autorizado em tempo porque se tratava de uma reunião oficial. A impressão que se tinha, nessas ocasiões, é que as autoridades da Casa Civil, que autorizavam esses afastamentos, imaginavam que os funcionários iriam para o exterior apenas para passear. A cada nova viagem o pedido de afastamento tinha que ser repetido e, mesmo com esse ritual, tinha um bando de brasileiros passeando em nome do governo e, ainda por cima, dizendo bobagens oficias. É bem verdade que esse trabalho dá mais motivação que a média das atividades no Brasil, atrás de uma escrivaninha! Passeia-se, é claro, mas trabalha-se muito!
Politicamente o país estava numa encruzilhada: depois de vinte e nove anos sem eleger diretamente um presidente, chegava-se à reta da eleição com dois candidatos: um jovem, ex-governador do estado de Alagoas, com imagem de um modernista de centro-direita. E, do outro lado, um candidato das esquerdas, originário do movimento sindicalista brasileiro. Esse último -Lula-, polarizou as forças de esquerda. O primeiro, prometia moralizar o país cassando marajás. O outro, apensar da ameaça de fracasso dos sistemas socialistas, prometia arrumar o país apoiado numa ideologia dita mais progressiva. A eleição foi realizada no dia 17 de dezembro de 1989, com esses dois candidatos, que saíram de um balaio de gatos formado por 32 partidos políticos!
Não vi a nem participei da corrida final. Ao término da missão na Alemanha fui passar alguns dias em Londres para ver minhas filhas que estavam com a mãe num programa de doutorado na área médica.
Viajei para a Alemanha pela Lufthansa -LH- num vôo confortável e com um bom serviço que os brasileiros, de forma geral, dizem que só a VARIG costuma oferecer a bordo. Há outras e, entre elas, a LH.
No horário previsto eu já estava fazendo parte das 370 toneladas de massa rumo a Frankfourt, numa uma velocidade de quase mil quilômetros horários. Dormi bem durante a viagem, na parte superior do Boing 477, onde fui alojado. A parte superior é pequena e confortável. Não tem serviço de TV, mas os demais serviços de bordo são quase pessoais. Os bancos são sensivelmente mais largos, o número de cadeiras é menor. Sobe-se por uma escadinha, passando pelo setor da primeira classe. Lá, o tratamento é diferenciado. Dorme-se bem porque há pouco ruído. O tempo em Franfourt, quando o aparelho chegou, estava bom. A cor acinzentada do inicio do inverno denunciava frio, beirando ao zero da escala Célsius.
Desembarquei pela saída "B" do aeroporto -a bagagem foi despachada diretamente para Bonn- e não encontrei o representante do DAAD. Caminhei, conferi o horário de chegada do vôo da VARIG para esperar Dr. Ubirajara e fui ao local indicado no painel para saber qual era a saída oficial do vôo da LH para quem tem bagagem para retirar. É que o aeroporto tem várias saídas e é bem desburacratizado. O aeroporto de Frankfourt, como qualquer outro na RFA, a passagem pela polícia de fronteira é muito fácil. Alguns viajantes apenas mostravam o passaporte sem parar. Quando fui dar o aviso ao pessoal do DAAD que eu acabara de chegar... ouvi o aviso de que alguém me esperava exatamente naquele local. Estávamos há uns 10 metros um do outro.
Foi assim que encontrei Olav, o guia que o DAAD tinha colocado a nossa disposição. Olav era um brasileiro que morava há algum tempo na Alemanha e que prestava serviço de interprete a convidados oficiais do governo. Tínhamos ainda algum tempo antes da chegada do vôo da VARIG pelo qual deveria chegar o diretor da CAPES. A minha passagem, como convidado corria por conta do governo alemão. Por sugestão de Olav, fizemos um passeio no centro da cidade de Frankfourt.
Rever Frankfourt foi muito agradável. Era um domingo e as ruas estavam vazias, como qualquer cidade grande. Os prédios dos bancos denunciavam a força da economia da cidade e do país: enormes, modernos, fortes, torres metálicas arranhando o céu. Eles são imponentes! Os prédios mais antigos resistem ao tempo depois de restaurados da destruição causada na última guerra mundial. A RFA continuava crescendo e com moeda forte, muito forte. Frankfourt é o reflexo da Alemanha.
Fazia frio e ventava um pouco. Dava uma sensação de desconfortável ao caminhar pelas ruas. Passamos pela praça Roma. É um local bonito onde está localizada a prefeitura da cidade. Mereceu algumas fotos. Poucas pessoas circulando: turistas, alemães conversando e bebendo nos bares. Por sugestão de Olav, tomamos um vinho quente com açúcar. Dizem que é tradicional na região. Aliás creio que é uma ótima maneira de consumir vinho de qualidade inferior.
O bar que ele escolheu estava lotado. Alguns casais falavam em voz baixa e com alguns gestos suaves. Quase sussurravam! É, creio, pecado falar alto. Olham-nos com atenção. Penso até que não sabiam em que língua estávamos falando a medir pela atenção que despertávamos. Nós também procurávamos abrigo do frio.
Nessas missões oficiais o DAAD sempre coloca â disposição dos grupos um guia e interprete. Às vezes é um poliglota, como era o caso de Olav. Ele é filho de pais brasileiros, mora na Alemanha há mais de 12 anos e fala -fluentemente- português, inglês, alemão, italiano e francês. Além de conhecer bem a Alemanha é um "expert" em restaurantes!
Constatamos, no decorrer da viagem, que era uma pessoa muito hábil para estabelecer contatos com outras pessoas. Sabe muito bem administrar o tempo, é "safo", não é inconveniente e estava sempre otimista e com boa vontade!
Depois de algum tempo, retornamos ao aeroporto e fomos confirmar o horário de chegada do vôo da VARIG. De lá, fomos para um bar-restaurante da rede Harold, de uma cadeia inglesa. Comemos um pastelão de salmão muito saboroso ou melhor, deliciosíssimo e institucional e fomos esperar pelo Dr. Ubirajara que chegou no horário previsto. Minha passagem foi paga pelo governo alemão e a do diretor da saiu por conta da CAPES. Por isso viajamos em horários diferentes.
Voltando ao bar. Lá, durante nosso lanche, observamos atendentes de origem inglesa e italiana. Olav conversou muito com a italiana. Em poucos minutos ficamos sabendo que a italiana veio da Calabria, que morava há 16 anos na Alemanha e quase não conhecia Frankfourt. Ouviu dizer que é uma cidade muito bonita e só. Desafiada por Olav, falou sobre a Itália. Disse que o pessoal do sul da Itália se comunica melhor e que as pessoas do Norte trabalham mais, mas também são mais chatas! Palavras dela!
Tivemos que esperar ainda uma hora para saída do trem para Bonn. É um trem da LH: confortável, tratamento idêntico ao do avião e o serviço prestado por "ferro-moças" bem treinadas e bonitas!
Chegamos a Bonn com uma chuvinha leve. Não havia neve mas estava frio. O DAAD nos acomodou no Hotel Pullmann, às margens do rio Reno. Depois de acomodados, à noite, Olav nos levou ao restaurante Aennchen, fundado no século XIX por uma mulher. É um dos bons restaurantes de Bonn, ao nível do Maxim’s, segundo Olav. Há ritual para o serviço oferecido: pessoal bem educado, local agradável, cheio de símbolos, entre cartões postais do fim do século, fotos de pessoas famosas e, entre elas, a própria fundadora.
Repousamos bem. Os hotéis na Alemanha têm camas confortáveis com lençóis brancos, cobertas leves e travesseiros enormes e macios que se pode moldurar de acordo com a vontade da pessoa. É bom porque no outro dia, os compromissos seriam marcados, como de costume, em minutos!
No dia seguinte, iniciamos os trabalhos com o Ministério de Relações Exteriores, um dos ministérios que financia o DAAD. Daí, até o fim da jornada, os compromissos foram executados com precisão... alemã!
A chuvinha fria incomodava um pouco. Bonn é uma cidade plana. Dizem que foi escolhida como capital porque Adenauer morava em Colônia e não gostava de ir muito longe para trabalhar!
É interessante a arquitetura de Bonn: moderna, estilo livre, prédios públicos sem forma pré-fixada e muito funcionais. Quase todas as construções com preocupação de conservação de energia para evitar perda de calor e aproveitamento do máximo da luz do dia. O prédio do DAAD -onde tivemos um dia de trabalho- é um exemplo de funcionalidade e de arquitetura moderna.
Depois da reunião de rotina, onde cumprimos a agenda, ponto por ponto, falando com pessoas ligadas a cada assunto, fomos ao restaurante, no próprio prédio. Continuamos a reunião disfarçada de almoço livre oferecido pelos anfitriões.
Esses contatos são importantes. Fica-se sabendo como é que as coisas andam pelo mundo afora. Fala-se de política, economia, situação do Brasil, a posição da Europa 92, a unificação da Alemanha, situação econômica do Brasil e muita coisas que... podem ser ditas. Diplomatas e pessoas que trabalham com área internacional são bastante reservados, mas também bem informadas.
O programa previa uma visita a Fundação Alexandre von Humbold. A entrevista com o pessoal da Fundação Humboldt a AvH, foi interessante. Coloca em evidência o que é planejamento de governo e que existe um projeto de Nação. Enquanto o DAAD cuida da juventude, na formação dos futuros cientistas, a AvH ocupa-se dos pesquisadores "seniors" de bom nível, uma espécie de candidato à Prêmio Nobel. É claro que o resultado em médio prazo é altamente favorável.
Terminado o dia de trabalho, caminhamos um pouco pelo centro da cidade. Bonn é uma cidade limpa e bem arrumada. O comércio fecha as portas às 18:30 sem um minuto de tolerância. As lojas já expunham motivos de Natal, bem ornamentadas e os brinquedos à preços fora de alcance de um terceiro mundista.


UNIFICAÇÃO DA ALEMANHA
A tônica de quase todas as conversas, depois dos compromissos formais, girava em torno da unificação da Alemanha. Existiam, no mínimo, três correntes de pensamento: uma de que a Europa não deixaria a Alemanha unificar-se. Afinal, ela já foi o epicentro de duas guerras. A outra corrente era de que ninguém segurava a unificação porque... o povo queria! Outros, ainda, alegavam, que sob o aspecto econômico, estavam percebendo uma saída para abrir campo de trabalho com alemães e dispensando, aos poucos, os "gastarbeit". Além desses argumentos, ou especulações, havia uma certeza: era apenas uma questão de tempo!
Os países em desenvolvimento, que eram clientes da RFA em programas de cooperação econômica, todavia, tinham um certo medo de que a nova Alemanha canalize os recursos destinados a cooperação apenas para reerguer a Alemanha Oriental, o Leste Europeu e os ajustes dos problemas da unificação da Europa. A minha opinião, à época, era que não iria acontecer nada disso. A Alemanha e outros países europeus manteriam o interesse no Brasil como o mais importante pais da América Latina.
Naquele ano –1989- o muro de Berlim e outras barreiras do comunismo estavam caindo como frutas maduras a algumas como frutas podres. O modelo estava esgotado. A guerra fria estava chegando ao seu fim. Se a Alemanha havia sido penalizada pelos erros do Nazismo e que, certamente, Hitler não havia sido o único culpado, porque prolongar essa agonia? Além do mais, era do conhecimento geral que a Alemanha Ocidental -RFA- e o Japão receberam, como parte da confrontação de pós-guerra, um montão de dinheiro para reconstruir-se. Recursos humanos eles ainda possuíam!
Progrediram bem e rápido porque não tiveram que gastar com armamento nem com exército. O mesmo não aconteceu com o lado Oriental. Havia, no ar, um sentimento de perdão e a Alemanha queria ver suas partes unidas. Era só esperar que iria acontecer.
O compromisso em Bonn havia terminado e nós teríamos -Dr. Ubirajara e eu- novos compromissos em Münster. Münster também foi uma cidade destruída pela guerra. À época da visita vivia de comércio, industria, turismo, universidade e centros de pesquisa. Só não tinha indústria pesada. As cidades alemãs têm muita coisa em comum: limpeza, estilo das casas, baixo nível de ruído e estão ligadas por uma extraordinária rede ferroviária! De lá viajamos para Munique.
Gostei de rever Münster. Essa era a terceira vez que visitava a cidade. Ah, outro ponto comum entre aquele país é que não existem táxis velhos: eram todos robustos automóveis marca Mercedes especiais, de estrutura firme e todos silenciosos. Quando alguém saia do carro, batiam a porta com tanta força que, se aplicada nos nossos carros fabricados no Brasil, desmontaria tudo! Mas não acontecia. A porta fechava firme e não voltava. Já imaginou um alemão batendo a porta de um fusquinha 62 daqui? Além de desmontar o veículo ele seria "xingado" pelo proprietário sendo ele taxistas ou não.
E a sinalização? Repetindo, é coisa de botar inveja! Os avisos de horários de trem estão lá, velhos e confiáveis. Quando ocorre alguma alteração de horário são logo corrigidos. Saindo da estação, as placas de ruas, nas estradas principais, nas secundárias... eles exageram. É por isso que eles sempre têm e confiam nos mapas de rotas de ferrovias ou rodovias!
Pinkus é um restaurante tradicional, com mesas antigas, de tábuas grossas, talhadas até com canivete, e que contam histórias de pessoas -famosas ou não- que passaram por lá. Nas paredes, com caibros â vista, inscrições, em escrita antiga, com frases relacionadas com o bom viver, comer e divertir-se. Enfim, um clima alegre!
Além de boa comida, o local induz a um clima para bons papos. Parece que tem atmosfera própria para fazer as pessoas soltarem a língua: uma espécie de templo a censura fica dormindo e a pessoas se soltam, dizem o que pensam. Não é que a conversa seja coisa de salvar o mundo ou mesmo de transmitir segredos de estado. Fala-se de coisas, de países, de cultura, de comida, de intercâmbio, de problemas solucionados, de desejos de povos e tantas outras coisas. Afinal, estávamos sentamos, à mesa, onde os anfitriões falavam outras línguas e tinham uma visão bastante ampla do mundo em que vivemos.
Terminado o almoço, fomos, à pé, até o endereço do outro compromisso de trabalho. No caminho, observávamos detalhes da arquitetura, adaptada para aproveitar melhor a energia solar.
Terminara a missão em Münster. Pela manhã, no outro dia, mais um aeroporto e, desta vez, com destino a Berlim. Como se sabe, é mais fácil chegar a Berlim de avião. Embora o ideal fosse viajar pela Alemanha de trem, é muito mais complicado por causa das formalidades aduaneiras. Berlim Ocidental ficava numa ilha dentro da Alemanha Oriental e, para chegar lá, de trem, teríamos que passar por território estrangeiro. Mesmo assim, de avião, partindo de Munique, é incerto por causa do tempo. O aeroporto era pequeno e não havia precisão de horário. Os vôos são normais e os aeroportos não têm a mesma suntuosidade das estações ferroviárias. São distâncias curtas. E tinha mais: no caso de viagem a Berlim, somente empresas estrangeiras é que podiam oferecer vôos. Dizem que as linhas ferroviárias são péssimas!
Chegamos ao destino com quase duas horas de atraso e, com isso, alteramos parte de programação prevista para a manhã daquele dia.
Berlim, repetindo, era uma ilha dentro da RDA. Após a guerra, ou mesmo antes de terminá-la, foi assinado um protocolo de ocupação da Alemanha. Por esse protocolo, dada a importância da cidade para a Alemanha, Berlim seria administrada à parte, pelos aliados que venceram as forças de Hitler. Situar-se-ia dentro do território que seria ocupado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, URSS.
A cidade tinha vinte bairros. Desses, oito ficariam para a URSS (A parte mais importante e imponente onde está localizada a Universidade de Humboldt, Catedral, o Portão de Brandemburgo -a Torre Eifel deles- e os prédios principais). Os americanos e ingleses, no espólio, ficaram com seis. Loyola Brandão, em "O Verde que Violentou o Muro" diz que os franceses não gostaram do critério do inventário e assim, houve nova distribuição de responsabilidades. Nessa nova divisão os ingleses cederam dois dos bairros aos eternos inimigos e aliados quando convêm.
Com o passar do tempo, no contexto da Guerra Fria, os americanos quiseram conter o comunismo. Jogaram muito dinheiro através do plano Marshal para recuperar a cidade, “do outro lado”. O efeito demonstração começou a estimular a fuga do lado oriental para o ocidental. Não havia outro caminho: delimitar os territórios. Foi o que fizeram com cercas de arame-farpado e mais tarde levantando muros de concreto.
Na opinião de Loyola "se os russos não fizessem o muro os americanos o fariam" porque foi o maior programa de propaganda anticomunista que se montou no mundo! Isso começou a ocorrer, de fato, em 1948 embora o muro, só tenha sido construído na década de sessenta.
O "muro da vergonha" passou a conter os alemães que circulavam ou que se movimentavam um único sentido: para fora do lado oriental. Dizem as estatísticas que do período de 1949 a 1961 mais de dois milhões de pessoas cruzaram as fronteiras. Desde então, a comunicação com o mundo não comunista passou a ser feito por trem e avião. A ligação aérea e feita dentro de um corredor de 32 quilômetros por empresas não alemães. Monopolizavam o transporte a PANAM, British e Air France.
O muro continuava pintado de -cheio- de "grafitis" com mil desenhos diferentes entre lamúrias escritas em vários idiomas, manifestações políticas contra os comunistas, desenhos de portas falsas, desenhos de brincadeiras diversas. Perdidas, até, algumas obscenidades! O lado oriental, pelo contrário, era limpo, com uma faixa livre -creio que de uns duzentos metros para que os "fugitivos" pudessem ser interceptados ou imobilizados com a sutil solicitação de uma bala de uma arma na mão dos comunistas.
O lado ocidental era impressionante. Não se podia entrar na vida do berlinense quando se está a serviço mas, alguma coisa dava para perceber e entender: dispensa do serviço militar para atrair jovens, injeção de recursos para transformar a região em centro de pesquisa e muitos outros incentivos para fazer a vida melhor naquela ilha de terra. É ainda uma cidade com vida noturna cheia de atrativos.
Foi emocionante ver o muro com uma passagem aberta, fato esse que ocorreu quase junto com outros símbolos do comunismo, no dia 8 de novembro de 1989. Em minha opinião, o muro começou a cair na Polônia e mais tarde, entre outros, com a Perestroika de Gorbatchov e as Quatro Modernizações da China, depois da revolução cultural, que culminou -mais tarde- com o fenômeno "Praça Tianammen " em Pequim.
Berlim Ocidental estava cheia de visitantes do outro lado e, também, de várias partes do mundo. Eles se concentram em vários lugares com preferência na área próxima do portão de Brandemburgo. Os orientais invadiam o outro lado em massas humanas. As primeiras filas ocorriam junto aos bancos para receber 100,00 DM Marcos que o governo da RFA estava dando a cada pessoa que cruzasse, para ensiná-los a comprar. Eles retiravam o dinheiro e os deixava na primeira loja ou, quando não, alguns jovens preferiam ficar em filas nas lojas ou locais que mostravam cenas pornográficas, libertando-se, talvez, de uma repressão que existiu -para muitos- durante toda a sua vida.
Era fácil distinguir o morador do lado oriental: era uma pessoa mais simples, gestos simples, como que um menino do interior chegando à cidade grande: olhava as vitrines com ar de surpresa e como uma grande novidade. Era diferente daquele que olhava uma vitrine específica que lhe interessava. Sentia-se, também, que alguns berlinenses olhavam, com um certo desdém, aos irmãos que circulavam nas ruas com seus carros pequenos e desconfortáveis e quase desmontando sozinhos de tão velhos que eram. Mas isso não o pensamento geral. Pessoas mais idosas, mais maduras, nas universidades, tinham outro ponto de vista: o reencontro entre irmãos, de mesma cultura, que estiveram separados, à força, por vários anos. O reencontro de famílias e de amigos. Pode deixar a imaginação solta!
Aproveitando um final de semana pudemos passear livremente nas imediações do muro. Foi emocionante ver aquela massa humana passando pelo muro, silenciosamente, no local aberto, com os guardas da RDA rindo, com face descontraída, observando livremente, o povo iniciar o domingo no lado ocidental! Tinha-se a impressão que ele trazia uma garra e vontade reprimida por muitos anos: uma espécie de força que ia contagiar o resto da Alemanha Comunista.
Eu acreditava que o principio dos vasos comunicantes ia funcionar. Certamente, mais e mais pessoas cruzariam as fronteiras. Imaginei logo que um "Plano Marshal alemão" para os alemães do lado oriental iria começar: os “DM” mesmo que em pequena quantia de DM 100,00 já era o primeiro passo para iniciar os orientais no consumismo.
Talvez, "haverá trabalho para todos e isso é bom" afirmou alguém durante uma de nossas reuniões de trabalho. Os ocidentais dependeriam menos dos trabalhadores estrangeiros. E foi isso que me assustou.
A minha impressão, pelo que havia escutado aqui e ali, era que o mundo, representado pelos poderosos países da Europa, não queria a unificação da Alemanha. Mas, não tinha dúvidas que era uma questão apenas de tempo. A força cultural era mais forte do que as forças políticas. Afinal, porque somente o lado Oriental tinha que pagar a conta pelos erros de Hitler?
Nessa caminhada no domingo pela manhã, vi de perto algumas pessoas com marretas e talhadeiras, tirando pedaços de cimento das placas do muro. Vi pessoas fotografando compulsivamente e sendo fotografadas. Próximo ao Portão de Brandemburgo a concentração era maior. Um pouco mais além, próximo ao rio, uma quantidade enorme de cruzes marcando lugares onde pessoas foram "fuziladas" ao tentar fugir para o lado ocidental. Algumas cruzes tinham datas bem próximas à época da abertura do muro.
Resolvemos almoçar no lado oriental. Foi uma decisão dolorida. Tomamos o metro e, em poucos minutos, estávamos saltando do metrô em uma estação suja e sem conforto, sem cartazes nas paredes, corredores mal cheirosos e também sujos e uma fila interminável para carimbar o passaporte! Os vagões do metro também não eram tão limpos! Até agora eu não entendi: pelo muro passava-se livremente. Para chegar ao outro lado, de metrô, seguia-se ainda o velho ritual alfandegário. Talvez a ordem ainda não tivesse chegado ao chefe dos serviços de fronteira.
Incrível a paciência que as pessoas tinham com as filas. Os agentes do controle de fronteira não tinham nenhuma vontade de resolver os problemas. Pareciam indiferentes a tudo e a todos! Depois de uma hora e meia é que conseguimos cruzar a fronteira. Consolava-nos, todavia, a chance de conversar com pessoas de várias partes do mundo e que demonstravam conhecer o Brasil via fenômeno inflação e dívida externa que, nessa época era notícia em todo o mundo. Nós tínhamos como vizinhos de fila italianos, noruegueses, ingleses e uma americana. Todos foram a Berlim para ver, de perto, o símbolo de uma época muito importante para a liberdade mundial. Não reclamaram da fila. Aquilo era também a prova que eles gostariam de ver. Sentia-se que eles estavam conscientes de que estavam participando de um marco na história do mundo.
No momento em que escrevia essas notas chega-nos a notícia de que o muro estava sendo totalmente demolido. Vi pela televisão, o desmonte, próximo ao portão de Brandemburgo.
Testemunhamos, também, um momento histórico importante para a humanidade. Caiu o símbolo da Guerra Fria. Caiu o símbolo de receitas econômicas socialistas. Sabe-se, hoje, que o socialismo tem que passar por profundas modificações e que o capitalismo não está resolvendo os problemas do mundo. Haverá um novo modelo de sociedade onde as fronteiras geográficas poderão mudar sem guerras e as distâncias passarem a ser medidas em horas de vôo e não em quilômetros.
As fronteiras alfandegárias estão mudando. Os problemas do mundo passam a interessar a todos -como ecologia, alimentação e energia - e cresce a consciência de que esse mundo é muito menor do que pensamos! Ele não é infinito.
Da estação do metro até o local realizamos uma caminhada belíssima passando pela rua principal onde os monumentos da poderosa Berlim ainda estavam lá: Universidade de Humboldt, Catedral, prédios públicos, as pontes sobre o rio. E a presença dos prédios baixos e longos marcando o período de pós-guerra.
O retorno também foi de metro. Desta vez Olav nos conduziu por caminhos reservados à autoridades diplomáticas para evitar as enormes filas. No outro dia, cedo, deixamos o hotel e fomos ao aeroporto Tegelonde tomaríamos um avião para Munique. Chegamos a Munique no horário previsto, vôo normal.
Nossa missão de trabalho continuava. Além da reunião com dirigentes de escolas e universidades, havia ainda a reunião da Comissão mista teuto-brasileira em Bonn. Bem, os detalhes dessa reunião estão nos relatórios técnicos.




MUNIQUE

Os compromissos que tínhamos em Munique foram centrados na Universidade de Munique e na Escola Superior de Tecnologia (FHS), duas instituições de ensino superior de filosofias completamente diferentes .....


Extraído de “ Viagens a Alemanha” (Não foi publicado)
de
Hamilton Savi

setembro 20, 2009

Sesimbra

(Extraido de " Viagens a Portugal", Hamilton Savi

Já estávamos no sétimo dia de viagem em território português. Havíamos retornado de São Miguel, nos Açores. Era sábado. Jorge Agostinho nos convidou para um giro turístico que, em geral, foge dos roteiros mais comuns, como aqueles que iniciam pela agência de turismo e terminam, como sempre, visitando os símbolos mais conhecidos de um país.
Saímos do Hotel, num automóvel Wolksvagen Sedam, que até hoje não sabemos se era de propriedade de seu amigo ou era um carro alugado e conduzido pelo seu amigo. Jorge Agostinho não tem automóvel. Se o alugou, não nos deixou conhecer em que condição o fez. Com ele, um senhor muito gentil, de nome Isac, que conduziu o popular fusquinha.
O roteiro previa vistas a monumentos, cidades, castelos e o que é muito mais importante: uma ótima conversa sobre coisas do mundo, tomando como gancho, alguma coisa que estávamos vendo.
Iniciamos o roteiro pelo Cabo Espichel, a oeste de Setúbal, onde há um farol, no extremo ocidental da Europa. O dia estava lindo e o clima, nesta época do ano, muito agradável. Observamos o farol, de perto, que orienta os navegadores dessa região do Atlântico e, lá embaixo, as águas lutavam contra o continente. A paisagem é belíssima: as águas no infinito azul, o farol e uma capela do século XVIII, onde algumas pessoas -dizem- pensavam ser o fim do mundo. No Cabo Espichel não há praias. Há um abismo, com uma diferença de nível de mais de 10 metros. Paramos para admirar a beleza do local. Levantamos os olhos e contemplamos o mar, ao longe, vendo o azul do céu quase confundindo com o azul das águas. O farol está colocado no ponto mais alto do cabo.
-Dali -apontou um local com algumas casas de alvenaria, onde estavam instalados os terminais dos cabos submarinos- sai toda nossa comunicação com o mundo que os satélites estão transformando na maior sucata marinha, disse nosso amigo. Outros comentários seguiram-se.
Às nossas costas, uma igreja, que outrora fora ponto focal de romarias. À nossa esquerda o farol. À direita a ermida citada onde, de acordo com a tradição, pessoas colocam moedinhas e fazem pedidos secretos.
Depois do exercício de contemplação, fomos visitar a igreja mandada construir pela realeza para atender aos peregrinos. Mais tarde ela foi restaurada sem grandes preocupações de fidelidade arquitetônica. Eliminaram os pontos de infiltração de umidade, cobriram com telhas modernas, corrigiram o piso com pedras de tipo e texturas diferentes daquelas usadas no passado. Havia até lajotas modernas.
O mais importante, no entanto, que o mestre quis nos mostrar, foi o conjunto de apartamentos, em duas alas, na praça principal, frente à igreja. No local nasceu um condomínio horizontal, aparentemente padronizado, que foi sendo levantado, aos poucos, pelos peregrinos. Cada peça foi sendo construída sem plano e sem apoio de arquitetos. Olhando de perto, não se vê uma coluna igual à outra, uma janela repetida nem uma porta igual à do vizinho. No conjunto, formou-se um monumento popular, construído pelos romeiros, para abrigo em épocas de romaria que já não ocorrem com tanta freqüência. Hoje é utilizado, durante o ano, como morada definitiva de pessoas que trabalham na região.
Circulamos pela praça, olhando um e outro detalhe. O professor aproveitou a oportunidade para cumprimentar um amigo que dizia morar em um dos apartamentos. Recebeu-o uma senhora de idade, vestida de preto, com lenço de mesma cor à cabeça e que, ao vê-lo, ficou com os olhos cheios de lágrimas. Respondeu, antes da pergunta, que seu marido havia partido. Ela, como muitas outras mulheres de sua idade, na sua condição, estarão condenadas, pela sua própria cultura, a viver o resto dos dias de sua vida em estado de luto. E, certamente, por não ter alternativas, continuará no “templo popular” do Cabo de Espichel.
A igreja do Cabo tem um passado religioso e uma crença associada a uma vontade popular, materializada nessa mistura de apartamentos, colocada de tal forma a definir uma avenida à entrada do templo cristão. Hoje as romarias já não são significativas as marcas estão lá.
Saímos dali rumo a Sesimbra. Ao lado da estrada, vimos alguns pastores e também muitas casas novas que, segundo professor, são de portugueses que vivem fora de Portugal, mas que preparam seu retorno à terra natal na terceira idade.
Chega-se ao Castelo de Sesimbra. Sobe-se a colina. Nosso guia –Jorge Agostinho- tenta encontrar outro amigo. Esse amigo passou a viver, com seus gatos, numa pequena casa anexa ao castelo. Nosso amigo bateu palmas, mas não o encontramos em casa.
-Deve estar abandonando seu abrigo -disse o professor-. Quando se vai avançando em idade -continuou- aumenta a necessidade de proteção e as pessoas começam a procurar a companhia de amigos como forma de mútuo apoio. Isso pode estar ocorrendo com ele porque não o tenho visto ultimamente, concluiu.
O tal amigo do professor deve ser uma pessoa muito interessante porque, pelo que entendi, abdicou de uma vida com recursos abundantes, num passado recente e passou a viver num castelo, quase na condição de guarda do mesmo, isolado-se do mundo. Ao lado do castelo, um cemitério, ainda com espaço enorme para construir outras moradas. Dizem que muitas pessoas da comunidade de Sesimbra exigem serem enterradas lá. Nota-se, também, a elevada reverência aos mortos porque mesmo não sendo dia de finados, nem dia de festas, os túmulos estavam cobertos de flores brancas naturais.
Da colina do castelo tem-se uma vista geral de Sesimbra, outrora uma vila de pescadores, mas que hoje divide o espaço com turistas e veranistas.
Chegamos ao centro da vila descendo a elevação do castelo e passando por modernos prédios de apartamentos que chocam, à primeira vista, pelo estilo da arquitetura que mais se assemelha a caixas de forma quadrangular empilhadas de forma desordenada para que todos os moradores tenham mais contato com o sol. O novo conjunto arquitetônico não interfere com a beleza diferente da velha típica e conservada vila de pescadores.
Chegamos ao centro da vila na hora de almoçar. Optamos por um pequeno restaurante, já conhecido do mestre. A caminhada até o local transforma-se em passeio. Novamente, seguindo pelas ruas estreitas e irregulares, com casas em estilo de dois andares, com atividade comercial ou industrial na parte inferior e residência na parte superior. As casas mantêm os estilos já conhecidos: forras de pedra com a parte superior em arco, paredes cobertas de ladrilhos, janelas com os vidros na parte externa.
É interessante ver a forma com que nasce uma cidade. A partir de um núcleo, a cidade vai expandindo e as ruas irregulares mantêm harmonia tornando-as mais agradáveis ao convívio humano. Continuo observando: o leito das ruas, ora aparecem com paralelepípedos pequenos e ora de cimento ou asfalto. Aqui e ali se vê pescadores preparando anzóis, espinhéis, colocando-os de forma regular e convenientemente acomodados dentro de uma bacia de madeira com formato de fundo de barril para levá-los ao mar, nos seus barcos de pesca. Mais além, outros pescadores reparam suas tarrafas, ora sentados em frente de sua casa corroída pela maresia, ou numa bem pintada ao lado de outra com o reboco caído e uma velha construção lutando contra o tempo e o sal a qual, mesmo aparentemente abandonada, mantém os vidros das janelas limpos e inteiros. A chaminé, com arabescos nos telhados e no pátio, em frente à praia, um cemitério de âncoras. Logo mais adiante, uns grupos de pescadores carregam suas redes em um caminhão enquanto um pescador passa, tranqüilamente, pela calçada, ao lado de uma baleeira cortada pela metade, fora d'água. Olhando para o oceano, ao fundo, o mar e o céu azul quase se confundem. Separa-os apenas uma névoa branca, na superfície das águas, definindo a linha do horizonte.
Acomodamo-nos no restaurante Toca do Ratinho, na Travessa da Paz, um sugestivo nome. Sentamos. Nossa mesa, entre outras, estava no meio da rua entre o restaurante e outras casas. Com toalhas brancas, estavam à espera dos turistas e veranistas. Entre outros, um prato típico: uma sopa com nome de cardápio: tamboril, uma espécie de risoto de lula, camarão e temperos adequados. Optamos por lula assada como prato principal. Para beber, pedimos um bom vinho branco.
O restaurante ficava um pouco afastado da rua principal. Dele era possível observar o mar e também as pessoas na tarefa de lavar pratos, na rua, disputando o espaço com pedestres. Quase não se percebia ruído de trabalho, mas estavam ali.
O nosso almoço foi demorado. Foram duas horas de conversa com Jorge Agostinho. Repassamos desde experiências pessoais até o desenho de ações a serem desenvolvidas para integrar os países lusófonos. Chegamos mesmo a colocar, na Toca do Ratinho, uma bandeira simbólica do Brasil em Portugal, porto para todos os projetos visualizados, tendo como ponte as Universidades e com envolvimento de professores dos vários países e, com aval das agências que investem na troca de experiências internacionais, através do aprendizado com escolas e o povo.
Discutimos Portugal com seus dez milhões de habitantes com cidadania portuguesa dos qual quase um terço está fora do país.
Discutimos a juventude e constatamos que está para ser escrito um livro para dar as respostas às perguntas que ninguém sabe. Discutimos os erros da educação que prepara o homem para fazer e não responder perguntas.
Ficamos sabendo por que Portugal é o país ideal, na Europa, para ser o paraíso da terceira idade.
Ficamos preocupados com o drama de um país que explora sua agricultura até o máximo que pode, mas ainda tem que importar 60% do alimento que necessita para o sustento de seu povo.
Segundo Jorge Agostinho, este é o momento mais importante para que o Brasil se integre a Portugal. Certamente advirão dificuldades quando Portugal ingressar na Comunidade Européia. Portugal pode -e tem interesse em ser- ponte do Brasil para Europa. Diz ele.
Terminamos a conversa com a recomendação do mestre de que deveríamos adotar o processo do padre: "botar um tijolo na catedral visualizada e deixar o povo botar o resto".
Saímos convencidos de que Santa Catarina tinha desembarcado em Açores pelos caminhos que até ali tinham sido abertos. Bastava dar continuidade, estimulando os povos de língua portuguesa a conhecer-se melhor através da ponte da educação. A causa da língua comum é um caminho que pode ser trilhado pelas universidades. Ela representa integração com os países africanos como Angola, Moçambique, Guiné, Açores e com a Ásia (Macao e Gôa). A união dos países do terceiro mundo, fora das Américas, (que poderão polarizar com a Espanha) deve começar por aqueles que têm algo comum. Esse algo comum é a língua. Vale a pena fazer a ponte da cultura e ciência contemporâneas, que na busca de suas raízes comuns pode até abrir, de forma mais conveniente, o caminho para os problemas econômicos os quais a todos angustiam e inquietam. O caminho das universidades é mais fácil porque se formam as conexões invisíveis nas trocas de informações culturais e científicas.
Terminado o almoço descansamos um pouco no apartamento de dona Violante, que estava desocupado. Foi uma excelente oportunidade para recarregar as baterias. Depois seguimos viagem.
Deixamos Sesimbra em direção a Setubal, passando pela Serra da Arabida, uma região de calcário, um trecho muito bonito de estrada, passando por olivais, vinhedos, pinheirais (de onde se extrai resinas) e laranjais.
Avista-se, da estrada, o convento dos padres franciscanos (hoje propriedade particular) que mostra, de forma muito bonita, como é que o conjunto foi irregularmente crescendo, na medida das necessidades. É um bonito convento do século XVI, em terras do duque D'Aveiros e hoje é propriedade particular do duque D'Almada. O convento confirma que os franciscanos sempre escolhem lugares muito bonitos enquanto que os beneditinos preferem as quatro paredes de um convento. De lá, uma belíssima vista para o Atlântico.
Chega-se a Setubal. A cidade já foi residência oficial da realeza. O terremoto de 1755 a destruiu e muitas construções não resistiram aos abalos. Entre o que sobrou está o Castelo de São Filipe cuja restauração choca aos olhos se comparado com os nossos padrões. Não tem o rigorismo do ISPHAN no Brasil. Todavia, não é um sumidouro de recursos: é usado como hotel.
Vimos pouco de Setúbal por conta de um pequeno acidente com nosso veículo. Nosso fusquinha foi atingido por outro, causando peque-nos danos, retendo-nos algum tempo no local até que chegassem autoridades para registro do ocorrido. Isto nos obrigou a cortar parte do programa planejado pelo professor. Retornamos a Lisboa passando por uma região muito rica onde, segundo Jorge Agostinho, vive mais de um terço da população do país. É a área de quintas mais bonitas de Portugal.
Lisboa, maio de 1984