La Paz
Deixamos o Hotel
O primeiro caso nós o descartamos. Era muito caro. No segundo, mais barato, não havia lugar e no terceiro, caro e badalado, mas também não havia lugar. Com reservas, somente com uma semana de antecedência. Só nos restou uma saída: táxi lotação. Não lembro o nome da empresa de turismo mas eles falavam - tenho certeza - em microônibus.
Levamos um susto quando ainda no estávamos no hotel. Um "chouffer", dirigindo um enorme carro americano chegou e perguntou, na portaria, se haviam dois passageiros para Desaguadero. Ouvimos o dialogo. Nós estávamos sentados em um banco bem próximo ao balcão do hotel, pouco mais de duas estrelas, de forma a ver qualquer movimento de micro-ônibus que a qualquer hora parquearia. Esperávamos uma algazarra como aquelas que deve ter ocorrido na construção da Torre de Babel. Nós já nos imaginávamos sentados, conversando com turistas de várias nacionalidades. Haviam nos informado que o guia era multilíngue e bem informado.
Passaram-se alguns minutos. Nós (e o pacato senhor a procura dos passageiros para Desaguadero) começávamos a ficar impacientes.
De repente, retornou ao balcão e perguntou:
-No hay acá los senhores Silveira e Savi? Sem abrir a boca, o balconista apontou para nós...
-Nós vamos para Cusco, respondemos simultaneamente.
-Então embarquem, porque para ir a Custo "hay" que passar por Desaguadero.
Embarcamos num Ford, creio que ano 60, bem conservado e limpo. No banco dianteiro, a guia. Nem prolongamos a conversa. Alias, nem conversamos...
Saímos da casca do ovo. Estávamos sentados, como passageiros nobres, no banco traseiro do "fordão-preto". Entendemos que nosso lotação era aquele mesmo. Hamilton se virou para mim, falando entre os dentes, com vergonha de ser ouvido para não passar recibo de trouxa, soltou, um num tom melancólico, e com ar de que fomos enrolados: "Esses filhos de uma puta nos f. ".
De fato. Descobrimos, mais tarde, que o ônibus era blefe. Os cambistas compram para revender na hora do embarque. No trem sempre há lugares disponíveis. Nós pagamos juntos, 100 U$. Outros colegas, que viajaram de trem, pagaram mais ou menos 10 U$ (comprado no câmbio paralelo). De ônibus, que também havia lugar, nossos amigos paulistas pagaram em torno de 5U$. Tudo bem. Resolvemos, dai para diante, usar tudo o que tínhamos direito.
Parava-mos para fotografar igrejas, nativos, lhamas, campos, vilas, e danças. Conversamos com nativos, ficamos amigos do motorista, discutimos com a nossa guia, visitamos as ruídas de Tiahuanaco, discutimos economia e falamos do Brasil.
A viagem, contornando o lado Titicaca é muito bonita. No horário previsto estávamos na fronteira com o Peru, no tal Desaguadeiro, que e um posto alfandegário. O nome do local e emprestado do rio que tem o mesmo nome e que liga o lago Poojo ao Titicaca.
A imagem de exploração fica logo apagada com a visão da beleza da região. De um lado, o Titicaca, que a gente não via a toda hora, mas sabia que ele estava ai, sempre a nossa direita, entre a nossa estrada de terra batida e os Montes Llimani eternamente cobertos de neve!
No caminho, próximo a Tihauanaco, uma cena cinematográfica: um índio, com sua mulher, caminhando puxando uma lhama que transportava, em seu dorso, um arado primitivo e outras ferramentas. Para completar o quadro, tipicamente vestidos e sem nenhuma interferência de empresa de turismo: ao vivo! Depois das fotos, tivemos que dar alguns trocados. Dizem que e assim mesmo.
Quando chegamos a Desaguadero tivemos que aguardar o carro que viria de Cusco, e que nos levaria até o posto alfandegário. Ficamos ouvindo o bate papo dos guardas dos dois lados. Ora nos abrigava-mos ao Sol e ora à sombra. À sombra sentia-se frio demais e ao Sol, forte, queimava muito. Os guardas brincavam com as riquezas e pobrezas de cada pais. Um ironizava que no lado peruano se pescavam trutas e o outro retrucava que no lado contrario, só se pescavam sapos gigantes referindo-se as pesquisas da equipe de Jacques Custeaux no Titicaca.
A espera, já no lado peruano, foi demorada mas muito interessante. Tivemos tempo para fotografar um barco de totora, e lavar as mãos nas águas geladas do lago. O céu estava lindo, com algumas nuvens no ar e ... o mais importante e belo, emocionante o perfil dos Ilimanes, cobertos de algodão, deixando uma leve margem verde na parte inferior para destacar e encontrar o azul do Titicaca.
O carro que veio de Puno, trocou os passageiros com carro que veio de
É pena que isso já se passasse há mais de 10 anos. É pena que os países ricos estejam matando os coitados dos chamados países do terceiro mundo. É pena que a passagem para a condição de desenvolvido, segundo os padrões econômicos e culturais, custe tão caro ao homem! É pena que as fronteiras passassem a ficar tão perigosas por causa dos com os traficantes e contrabandistas. É pena que a economia afaste tanto aqueles que a tecnologia tenta aproximar!
É bom, ainda, que existam fronteiras para que cada pais preserve as suas coisas boas e evite entrada das más. É bom que se aprenda com aqueles que "sabem menos" e que se ensinem aqueles que sabem mais. É bom que o mundo tenha e mantenha seus contrastes. Seria melhor se a tecnologia não uniformizasse tanto os países. É bom viajar para que se possa ver, olhar, sentir e relativar coisas daqui e dali .
Hamilton Savi
Florianópolis, Outubro de 83
(Extraido de: Uma viagem ao Mundo Mágicco dos Incas do mesmo autor)

