O Cometa
O Cometa Halley só aparece de 76 em 76 anos. Na penúltima vez que andou por perto da Terra ele ficou há apenas 25 milhões de quilômetros de distância. Em termos astronômicos é titica! A viagem nesse ano, ou melhor, na visita ele ficou com medo. No dia em que ficou mais próximo do nosso planeta, foi de sessenta e cinco milhões de quilômetros! Dizem que isto e quase nada em medidas de astronômicas. Para mim e muito longe. É distância pra burro!
Diziam os astrônomos, em particular os cometeiros, que no dia 11 de abril de 1986 ele estaria mais próximo da Terra, nesta atual peregrinação pelo espaço sideral. Pois bem. Era uma sexta feira. Toda a população só falava no Cometa, apesar de fazê-lo com uma alguma frustração, porque até agora ele se deixava ver a um tamanho não muito maior que uma estrela e, a olho bem treinado, usando todas as referências possíveis, conseguia ver uma estrelinha com uma espécie de "aura" luminosa.
Era dia da máxima aproximação desse viajante sideral. Eu estava em meu escritório, quando Danna, um colega de trabalho no Ministério, me telefonou.
-Vamos ver o Halley? Perguntou-me.
-Vamos, respondi imediatamente. Porque na próxima não estarei aqui, disse brincando.
Marcamos para nos encontrar na Quadra 304 Norte, onde eu morava e que ficava no caminho de Sobradinho, o local aonde nos iríamos nos juntar a outras pessoas. Danna morava na Asa Sul.
Seguindo as recomendações dele, sai para comprar um colchonete, pão integral, queijo, água mineral e outras coisas necessárias para "acampar" em uma das duas casas em que a ordem "CRUZ E O LOTUS" comprou na região da cidade de Formosa. Nesse local a Ordem deverá construir o "Templo dos Sete Raios", um Templo intuído pelo Mestre e líder espiritual da Ordem.
Saímos. Longos papos sobre varias coisas, durante a viagem de ida. Danna tinha idéia muito clara do caminho para chegar ao local. Quando apareceu a primeira placa indicando Lagoa Formosa, entramos para a esquerda conforme o seu memorial descritivo. Daqui, diz ele, temos que andar uns dez quilômetros. Andamos cerca de uns quinze e nada de encontrar a outra referência necessária para chegar ao destino.
Voltamos à estrada principal. Andamos dez quilômetros e nada. Retornamos. Seguimos em direção à estrada que levava a Salvador, Bahia. Uma nova derivação para a esquerda.
-Desta vez acertei -disse Danna- é aqui, tenho certeza!
Andamos cerca de dez quilômetros numa estradinha cerrado à dentro e nada!
-Tem que ser aqui -insistia Danna- eu já estive aqui e tem que ser aqui. Tem que ser aqui... tem que ...
Passava das 10 horas da noite e nos ainda procurávamos um poste inclinado e uma casa abandonada, no lado esquerdo da estrada de terra. Logo após viria a estrada para a futura sede do "Templo dos Sete Raios".
Retornamos sensivelmente chateados: primeiro por não encontrar o caminho onde tínhamos a certeza de encontrar um grande numero de adeptos da "Cruz e o Lotus" e de ver, em grupo, o invisível Cometa!!!
Desanimados, batemos de volta para Brasília. Quase onze horas da noite. Uma hora e meia de viagem ainda até o Plano Piloto. Conversamos muito. Era o que nos restava fazer. Em meio à frustração do Halley, comentários sobre frustração da vida. Os casamentos mal feitos os desamores, os filhos de casais sem harmonia, os descasamentos, liberdades, à saída dos buracos, os movimentos feministas, o machismo, a educação dos filhos etc foram alguns dos temas que passaram rapidamente quase na hora do Lobisomem. Passamos Sobradinho. Na descida para Brasília, tivemos uma surpresa: uma fila enorme de carros, parados, com as pessoas olhando para o céu.
Paramos, nós também. Pusemos-nos a olhar para o alto. Lembrei-me de todos os mapas que vi, mostrando o mapa celeste, onde o andarilho deveria aparecer. Senti dificuldades porque, no céu, as estrelas não têm nomes. Nós estamos acostumados a identificar, nos mapas rodoviários, com facilidade porque as ruas, estradas, vilas e cidades têm nomes. No céu, os astrônomos não colocam placas nas constelações e nem nos planetas como fazem os engenheiros nas estradas. Mesmo assim, arrisquei. Olhei para uma região, onde me pareceu mais lógico, auxiliado pela memória de um mapa com nomes, (zinhos) e apontei o dedo para o alto, dizendo para meu amigo Danna que estava ao meu lado:
-Lá está ele, disse sem nenhuma certeza. As cabeças próximas voltaram-se para aquela direção, na abóbada, e quase todos afirmavam ter visto o escondido. Eu acho o que o vi. Creio tê-lo visto. Ele estava ali, no meio de tantas estrelas com uma leve "aura" como aquelas fotografias de efeito Kirlian, como se fosse algo ionizado.
De qualquer forma, valeu a tentativa de vê-lo
Poucos dos que presenciaram a sua passagem verão a próxima volta. Muitos não o viram ainda e jamais o verão. O fato e ele, que de tempo em tempo, volta para ver o que já fizemos. Ele vai se desgastando pelo espaço sideral afora, dentro da nossa minúscula galáxia e nos, também, navegando no espaço, numa órbita um pouco deferente também vamos nos desgastado: Engolindo nossas florestas, consumindo nossas riquezas minerais, poluindo nossos rios modificando a ionosfera, tornando nos mais vulneráveis aos raios ao que vem do espaço, andando mais depressa, crescendo, vertiginosamente, em número de pessoas e aperfeiçoando os já perigosos métodos de auto-exterminação.
Mas, a frustração de não ver o Comenta, no tamanho como nos fizeram crer os cientistas, teve o mérito, nesta sua aproximação: nos obrigou a olhar para o céu e contemplar a beleza do Universo. Ele nos obrigou a pensar no Cosmos.
Ele permitiu que a ciência descobrisse, através dele mesmo, um pouco mais sobre o nosso passado -o da Terra- e com isso conhecer mais as profundezas de nossas raízes: nossa Origem Cósmica.
Hamilton Savi
Brasília 28/04/86


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