Sesimbra
(Extraido de " Viagens a Portugal", Hamilton Savi
Já estávamos no sétimo dia de viagem em território português. Havíamos retornado de São Miguel, nos Açores. Era sábado. Jorge Agostinho nos convidou para um giro turístico que, em geral, foge dos roteiros mais comuns, como aqueles que iniciam pela agência de turismo e terminam, como sempre, visitando os símbolos mais conhecidos de um país.
Saímos do Hotel, num automóvel Wolksvagen Sedam, que até hoje não sabemos se era de propriedade de seu amigo ou era um carro alugado e conduzido pelo seu amigo. Jorge Agostinho não tem automóvel. Se o alugou, não nos deixou conhecer em que condição o fez. Com ele, um senhor muito gentil, de nome Isac, que conduziu o popular fusquinha.
O roteiro previa vistas a monumentos, cidades, castelos e o que é muito mais importante: uma ótima conversa sobre coisas do mundo, tomando como gancho, alguma coisa que estávamos vendo.
Iniciamos o roteiro pelo Cabo Espichel, a oeste de Setúbal, onde há um farol, no extremo ocidental da Europa. O dia estava lindo e o clima, nesta época do ano, muito agradável. Observamos o farol, de perto, que orienta os navegadores dessa região do Atlântico e, lá embaixo, as águas lutavam contra o continente. A paisagem é belíssima: as águas no infinito azul, o farol e uma capela do século XVIII, onde algumas pessoas -dizem- pensavam ser o fim do mundo. No Cabo Espichel não há praias. Há um abismo, com uma diferença de nível de mais de 10 metros. Paramos para admirar a beleza do local. Levantamos os olhos e contemplamos o mar, ao longe, vendo o azul do céu quase confundindo com o azul das águas. O farol está colocado no ponto mais alto do cabo.
-Dali -apontou um local com algumas casas de alvenaria, onde estavam instalados os terminais dos cabos submarinos- sai toda nossa comunicação com o mundo que os satélites estão transformando na maior sucata marinha, disse nosso amigo. Outros comentários seguiram-se.
Às nossas costas, uma igreja, que outrora fora ponto focal de romarias. À nossa esquerda o farol. À direita a ermida citada onde, de acordo com a tradição, pessoas colocam moedinhas e fazem pedidos secretos.
Depois do exercício de contemplação, fomos visitar a igreja mandada construir pela realeza para atender aos peregrinos. Mais tarde ela foi restaurada sem grandes preocupações de fidelidade arquitetônica. Eliminaram os pontos de infiltração de umidade, cobriram com telhas modernas, corrigiram o piso com pedras de tipo e texturas diferentes daquelas usadas no passado. Havia até lajotas modernas.
O mais importante, no entanto, que o mestre quis nos mostrar, foi o conjunto de apartamentos, em duas alas, na praça principal, frente à igreja. No local nasceu um condomínio horizontal, aparentemente padronizado, que foi sendo levantado, aos poucos, pelos peregrinos. Cada peça foi sendo construída sem plano e sem apoio de arquitetos. Olhando de perto, não se vê uma coluna igual à outra, uma janela repetida nem uma porta igual à do vizinho. No conjunto, formou-se um monumento popular, construído pelos romeiros, para abrigo em épocas de romaria que já não ocorrem com tanta freqüência. Hoje é utilizado, durante o ano, como morada definitiva de pessoas que trabalham na região.
Circulamos pela praça, olhando um e outro detalhe. O professor aproveitou a oportunidade para cumprimentar um amigo que dizia morar em um dos apartamentos. Recebeu-o uma senhora de idade, vestida de preto, com lenço de mesma cor à cabeça e que, ao vê-lo, ficou com os olhos cheios de lágrimas. Respondeu, antes da pergunta, que seu marido havia partido. Ela, como muitas outras mulheres de sua idade, na sua condição, estarão condenadas, pela sua própria cultura, a viver o resto dos dias de sua vida em estado de luto. E, certamente, por não ter alternativas, continuará no “templo popular” do Cabo de Espichel.
A igreja do Cabo tem um passado religioso e uma crença associada a uma vontade popular, materializada nessa mistura de apartamentos, colocada de tal forma a definir uma avenida à entrada do templo cristão. Hoje as romarias já não são significativas as marcas estão lá.
Saímos dali rumo a Sesimbra. Ao lado da estrada, vimos alguns pastores e também muitas casas novas que, segundo professor, são de portugueses que vivem fora de Portugal, mas que preparam seu retorno à terra natal na terceira idade.
Chega-se ao Castelo de Sesimbra. Sobe-se a colina. Nosso guia –Jorge Agostinho- tenta encontrar outro amigo. Esse amigo passou a viver, com seus gatos, numa pequena casa anexa ao castelo. Nosso amigo bateu palmas, mas não o encontramos em casa.
-Deve estar abandonando seu abrigo -disse o professor-. Quando se vai avançando em idade -continuou- aumenta a necessidade de proteção e as pessoas começam a procurar a companhia de amigos como forma de mútuo apoio. Isso pode estar ocorrendo com ele porque não o tenho visto ultimamente, concluiu.
O tal amigo do professor deve ser uma pessoa muito interessante porque, pelo que entendi, abdicou de uma vida com recursos abundantes, num passado recente e passou a viver num castelo, quase na condição de guarda do mesmo, isolado-se do mundo. Ao lado do castelo, um cemitério, ainda com espaço enorme para construir outras moradas. Dizem que muitas pessoas da comunidade de Sesimbra exigem serem enterradas lá. Nota-se, também, a elevada reverência aos mortos porque mesmo não sendo dia de finados, nem dia de festas, os túmulos estavam cobertos de flores brancas naturais.
Da colina do castelo tem-se uma vista geral de Sesimbra, outrora uma vila de pescadores, mas que hoje divide o espaço com turistas e veranistas.
Chegamos ao centro da vila descendo a elevação do castelo e passando por modernos prédios de apartamentos que chocam, à primeira vista, pelo estilo da arquitetura que mais se assemelha a caixas de forma quadrangular empilhadas de forma desordenada para que todos os moradores tenham mais contato com o sol. O novo conjunto arquitetônico não interfere com a beleza diferente da velha típica e conservada vila de pescadores.
Chegamos ao centro da vila na hora de almoçar. Optamos por um pequeno restaurante, já conhecido do mestre. A caminhada até o local transforma-se em passeio. Novamente, seguindo pelas ruas estreitas e irregulares, com casas em estilo de dois andares, com atividade comercial ou industrial na parte inferior e residência na parte superior. As casas mantêm os estilos já conhecidos: forras de pedra com a parte superior em arco, paredes cobertas de ladrilhos, janelas com os vidros na parte externa.
É interessante ver a forma com que nasce uma cidade. A partir de um núcleo, a cidade vai expandindo e as ruas irregulares mantêm harmonia tornando-as mais agradáveis ao convívio humano. Continuo observando: o leito das ruas, ora aparecem com paralelepípedos pequenos e ora de cimento ou asfalto. Aqui e ali se vê pescadores preparando anzóis, espinhéis, colocando-os de forma regular e convenientemente acomodados dentro de uma bacia de madeira com formato de fundo de barril para levá-los ao mar, nos seus barcos de pesca. Mais além, outros pescadores reparam suas tarrafas, ora sentados em frente de sua casa corroída pela maresia, ou numa bem pintada ao lado de outra com o reboco caído e uma velha construção lutando contra o tempo e o sal a qual, mesmo aparentemente abandonada, mantém os vidros das janelas limpos e inteiros. A chaminé, com arabescos nos telhados e no pátio, em frente à praia, um cemitério de âncoras. Logo mais adiante, uns grupos de pescadores carregam suas redes em um caminhão enquanto um pescador passa, tranqüilamente, pela calçada, ao lado de uma baleeira cortada pela metade, fora d'água. Olhando para o oceano, ao fundo, o mar e o céu azul quase se confundem. Separa-os apenas uma névoa branca, na superfície das águas, definindo a linha do horizonte.
Acomodamo-nos no restaurante Toca do Ratinho, na Travessa da Paz, um sugestivo nome. Sentamos. Nossa mesa, entre outras, estava no meio da rua entre o restaurante e outras casas. Com toalhas brancas, estavam à espera dos turistas e veranistas. Entre outros, um prato típico: uma sopa com nome de cardápio: tamboril, uma espécie de risoto de lula, camarão e temperos adequados. Optamos por lula assada como prato principal. Para beber, pedimos um bom vinho branco.
O restaurante ficava um pouco afastado da rua principal. Dele era possível observar o mar e também as pessoas na tarefa de lavar pratos, na rua, disputando o espaço com pedestres. Quase não se percebia ruído de trabalho, mas estavam ali.
O nosso almoço foi demorado. Foram duas horas de conversa com Jorge Agostinho. Repassamos desde experiências pessoais até o desenho de ações a serem desenvolvidas para integrar os países lusófonos. Chegamos mesmo a colocar, na Toca do Ratinho, uma bandeira simbólica do Brasil em Portugal, porto para todos os projetos visualizados, tendo como ponte as Universidades e com envolvimento de professores dos vários países e, com aval das agências que investem na troca de experiências internacionais, através do aprendizado com escolas e o povo.
Discutimos Portugal com seus dez milhões de habitantes com cidadania portuguesa dos qual quase um terço está fora do país.
Discutimos a juventude e constatamos que está para ser escrito um livro para dar as respostas às perguntas que ninguém sabe. Discutimos os erros da educação que prepara o homem para fazer e não responder perguntas.
Ficamos sabendo por que Portugal é o país ideal, na Europa, para ser o paraíso da terceira idade.
Ficamos preocupados com o drama de um país que explora sua agricultura até o máximo que pode, mas ainda tem que importar 60% do alimento que necessita para o sustento de seu povo.
Segundo Jorge Agostinho, este é o momento mais importante para que o Brasil se integre a Portugal. Certamente advirão dificuldades quando Portugal ingressar na Comunidade Européia. Portugal pode -e tem interesse em ser- ponte do Brasil para Europa. Diz ele.
Terminamos a conversa com a recomendação do mestre de que deveríamos adotar o processo do padre: "botar um tijolo na catedral visualizada e deixar o povo botar o resto".
Saímos convencidos de que Santa Catarina tinha desembarcado em Açores pelos caminhos que até ali tinham sido abertos. Bastava dar continuidade, estimulando os povos de língua portuguesa a conhecer-se melhor através da ponte da educação. A causa da língua comum é um caminho que pode ser trilhado pelas universidades. Ela representa integração com os países africanos como Angola, Moçambique, Guiné, Açores e com a Ásia (Macao e Gôa). A união dos países do terceiro mundo, fora das Américas, (que poderão polarizar com a Espanha) deve começar por aqueles que têm algo comum. Esse algo comum é a língua. Vale a pena fazer a ponte da cultura e ciência contemporâneas, que na busca de suas raízes comuns pode até abrir, de forma mais conveniente, o caminho para os problemas econômicos os quais a todos angustiam e inquietam. O caminho das universidades é mais fácil porque se formam as conexões invisíveis nas trocas de informações culturais e científicas.
Terminado o almoço descansamos um pouco no apartamento de dona Violante, que estava desocupado. Foi uma excelente oportunidade para recarregar as baterias. Depois seguimos viagem.
Deixamos Sesimbra em direção a Setubal, passando pela Serra da Arabida, uma região de calcário, um trecho muito bonito de estrada, passando por olivais, vinhedos, pinheirais (de onde se extrai resinas) e laranjais.
Avista-se, da estrada, o convento dos padres franciscanos (hoje propriedade particular) que mostra, de forma muito bonita, como é que o conjunto foi irregularmente crescendo, na medida das necessidades. É um bonito convento do século XVI, em terras do duque D'Aveiros e hoje é propriedade particular do duque D'Almada. O convento confirma que os franciscanos sempre escolhem lugares muito bonitos enquanto que os beneditinos preferem as quatro paredes de um convento. De lá, uma belíssima vista para o Atlântico.
Chega-se a Setubal. A cidade já foi residência oficial da realeza. O terremoto de 1755 a destruiu e muitas construções não resistiram aos abalos. Entre o que sobrou está o Castelo de São Filipe cuja restauração choca aos olhos se comparado com os nossos padrões. Não tem o rigorismo do ISPHAN no Brasil. Todavia, não é um sumidouro de recursos: é usado como hotel.
Vimos pouco de Setúbal por conta de um pequeno acidente com nosso veículo. Nosso fusquinha foi atingido por outro, causando peque-nos danos, retendo-nos algum tempo no local até que chegassem autoridades para registro do ocorrido. Isto nos obrigou a cortar parte do programa planejado pelo professor. Retornamos a Lisboa passando por uma região muito rica onde, segundo Jorge Agostinho, vive mais de um terço da população do país. É a área de quintas mais bonitas de Portugal.
Lisboa, maio de 1984
Já estávamos no sétimo dia de viagem em território português. Havíamos retornado de São Miguel, nos Açores. Era sábado. Jorge Agostinho nos convidou para um giro turístico que, em geral, foge dos roteiros mais comuns, como aqueles que iniciam pela agência de turismo e terminam, como sempre, visitando os símbolos mais conhecidos de um país.
Saímos do Hotel, num automóvel Wolksvagen Sedam, que até hoje não sabemos se era de propriedade de seu amigo ou era um carro alugado e conduzido pelo seu amigo. Jorge Agostinho não tem automóvel. Se o alugou, não nos deixou conhecer em que condição o fez. Com ele, um senhor muito gentil, de nome Isac, que conduziu o popular fusquinha.
O roteiro previa vistas a monumentos, cidades, castelos e o que é muito mais importante: uma ótima conversa sobre coisas do mundo, tomando como gancho, alguma coisa que estávamos vendo.
Iniciamos o roteiro pelo Cabo Espichel, a oeste de Setúbal, onde há um farol, no extremo ocidental da Europa. O dia estava lindo e o clima, nesta época do ano, muito agradável. Observamos o farol, de perto, que orienta os navegadores dessa região do Atlântico e, lá embaixo, as águas lutavam contra o continente. A paisagem é belíssima: as águas no infinito azul, o farol e uma capela do século XVIII, onde algumas pessoas -dizem- pensavam ser o fim do mundo. No Cabo Espichel não há praias. Há um abismo, com uma diferença de nível de mais de 10 metros. Paramos para admirar a beleza do local. Levantamos os olhos e contemplamos o mar, ao longe, vendo o azul do céu quase confundindo com o azul das águas. O farol está colocado no ponto mais alto do cabo.
-Dali -apontou um local com algumas casas de alvenaria, onde estavam instalados os terminais dos cabos submarinos- sai toda nossa comunicação com o mundo que os satélites estão transformando na maior sucata marinha, disse nosso amigo. Outros comentários seguiram-se.
Às nossas costas, uma igreja, que outrora fora ponto focal de romarias. À nossa esquerda o farol. À direita a ermida citada onde, de acordo com a tradição, pessoas colocam moedinhas e fazem pedidos secretos.
Depois do exercício de contemplação, fomos visitar a igreja mandada construir pela realeza para atender aos peregrinos. Mais tarde ela foi restaurada sem grandes preocupações de fidelidade arquitetônica. Eliminaram os pontos de infiltração de umidade, cobriram com telhas modernas, corrigiram o piso com pedras de tipo e texturas diferentes daquelas usadas no passado. Havia até lajotas modernas.
O mais importante, no entanto, que o mestre quis nos mostrar, foi o conjunto de apartamentos, em duas alas, na praça principal, frente à igreja. No local nasceu um condomínio horizontal, aparentemente padronizado, que foi sendo levantado, aos poucos, pelos peregrinos. Cada peça foi sendo construída sem plano e sem apoio de arquitetos. Olhando de perto, não se vê uma coluna igual à outra, uma janela repetida nem uma porta igual à do vizinho. No conjunto, formou-se um monumento popular, construído pelos romeiros, para abrigo em épocas de romaria que já não ocorrem com tanta freqüência. Hoje é utilizado, durante o ano, como morada definitiva de pessoas que trabalham na região.
Circulamos pela praça, olhando um e outro detalhe. O professor aproveitou a oportunidade para cumprimentar um amigo que dizia morar em um dos apartamentos. Recebeu-o uma senhora de idade, vestida de preto, com lenço de mesma cor à cabeça e que, ao vê-lo, ficou com os olhos cheios de lágrimas. Respondeu, antes da pergunta, que seu marido havia partido. Ela, como muitas outras mulheres de sua idade, na sua condição, estarão condenadas, pela sua própria cultura, a viver o resto dos dias de sua vida em estado de luto. E, certamente, por não ter alternativas, continuará no “templo popular” do Cabo de Espichel.
A igreja do Cabo tem um passado religioso e uma crença associada a uma vontade popular, materializada nessa mistura de apartamentos, colocada de tal forma a definir uma avenida à entrada do templo cristão. Hoje as romarias já não são significativas as marcas estão lá.
Saímos dali rumo a Sesimbra. Ao lado da estrada, vimos alguns pastores e também muitas casas novas que, segundo professor, são de portugueses que vivem fora de Portugal, mas que preparam seu retorno à terra natal na terceira idade.
Chega-se ao Castelo de Sesimbra. Sobe-se a colina. Nosso guia –Jorge Agostinho- tenta encontrar outro amigo. Esse amigo passou a viver, com seus gatos, numa pequena casa anexa ao castelo. Nosso amigo bateu palmas, mas não o encontramos em casa.
-Deve estar abandonando seu abrigo -disse o professor-. Quando se vai avançando em idade -continuou- aumenta a necessidade de proteção e as pessoas começam a procurar a companhia de amigos como forma de mútuo apoio. Isso pode estar ocorrendo com ele porque não o tenho visto ultimamente, concluiu.
O tal amigo do professor deve ser uma pessoa muito interessante porque, pelo que entendi, abdicou de uma vida com recursos abundantes, num passado recente e passou a viver num castelo, quase na condição de guarda do mesmo, isolado-se do mundo. Ao lado do castelo, um cemitério, ainda com espaço enorme para construir outras moradas. Dizem que muitas pessoas da comunidade de Sesimbra exigem serem enterradas lá. Nota-se, também, a elevada reverência aos mortos porque mesmo não sendo dia de finados, nem dia de festas, os túmulos estavam cobertos de flores brancas naturais.
Da colina do castelo tem-se uma vista geral de Sesimbra, outrora uma vila de pescadores, mas que hoje divide o espaço com turistas e veranistas.
Chegamos ao centro da vila descendo a elevação do castelo e passando por modernos prédios de apartamentos que chocam, à primeira vista, pelo estilo da arquitetura que mais se assemelha a caixas de forma quadrangular empilhadas de forma desordenada para que todos os moradores tenham mais contato com o sol. O novo conjunto arquitetônico não interfere com a beleza diferente da velha típica e conservada vila de pescadores.
Chegamos ao centro da vila na hora de almoçar. Optamos por um pequeno restaurante, já conhecido do mestre. A caminhada até o local transforma-se em passeio. Novamente, seguindo pelas ruas estreitas e irregulares, com casas em estilo de dois andares, com atividade comercial ou industrial na parte inferior e residência na parte superior. As casas mantêm os estilos já conhecidos: forras de pedra com a parte superior em arco, paredes cobertas de ladrilhos, janelas com os vidros na parte externa.
É interessante ver a forma com que nasce uma cidade. A partir de um núcleo, a cidade vai expandindo e as ruas irregulares mantêm harmonia tornando-as mais agradáveis ao convívio humano. Continuo observando: o leito das ruas, ora aparecem com paralelepípedos pequenos e ora de cimento ou asfalto. Aqui e ali se vê pescadores preparando anzóis, espinhéis, colocando-os de forma regular e convenientemente acomodados dentro de uma bacia de madeira com formato de fundo de barril para levá-los ao mar, nos seus barcos de pesca. Mais além, outros pescadores reparam suas tarrafas, ora sentados em frente de sua casa corroída pela maresia, ou numa bem pintada ao lado de outra com o reboco caído e uma velha construção lutando contra o tempo e o sal a qual, mesmo aparentemente abandonada, mantém os vidros das janelas limpos e inteiros. A chaminé, com arabescos nos telhados e no pátio, em frente à praia, um cemitério de âncoras. Logo mais adiante, uns grupos de pescadores carregam suas redes em um caminhão enquanto um pescador passa, tranqüilamente, pela calçada, ao lado de uma baleeira cortada pela metade, fora d'água. Olhando para o oceano, ao fundo, o mar e o céu azul quase se confundem. Separa-os apenas uma névoa branca, na superfície das águas, definindo a linha do horizonte.
Acomodamo-nos no restaurante Toca do Ratinho, na Travessa da Paz, um sugestivo nome. Sentamos. Nossa mesa, entre outras, estava no meio da rua entre o restaurante e outras casas. Com toalhas brancas, estavam à espera dos turistas e veranistas. Entre outros, um prato típico: uma sopa com nome de cardápio: tamboril, uma espécie de risoto de lula, camarão e temperos adequados. Optamos por lula assada como prato principal. Para beber, pedimos um bom vinho branco.
O restaurante ficava um pouco afastado da rua principal. Dele era possível observar o mar e também as pessoas na tarefa de lavar pratos, na rua, disputando o espaço com pedestres. Quase não se percebia ruído de trabalho, mas estavam ali.
O nosso almoço foi demorado. Foram duas horas de conversa com Jorge Agostinho. Repassamos desde experiências pessoais até o desenho de ações a serem desenvolvidas para integrar os países lusófonos. Chegamos mesmo a colocar, na Toca do Ratinho, uma bandeira simbólica do Brasil em Portugal, porto para todos os projetos visualizados, tendo como ponte as Universidades e com envolvimento de professores dos vários países e, com aval das agências que investem na troca de experiências internacionais, através do aprendizado com escolas e o povo.
Discutimos Portugal com seus dez milhões de habitantes com cidadania portuguesa dos qual quase um terço está fora do país.
Discutimos a juventude e constatamos que está para ser escrito um livro para dar as respostas às perguntas que ninguém sabe. Discutimos os erros da educação que prepara o homem para fazer e não responder perguntas.
Ficamos sabendo por que Portugal é o país ideal, na Europa, para ser o paraíso da terceira idade.
Ficamos preocupados com o drama de um país que explora sua agricultura até o máximo que pode, mas ainda tem que importar 60% do alimento que necessita para o sustento de seu povo.
Segundo Jorge Agostinho, este é o momento mais importante para que o Brasil se integre a Portugal. Certamente advirão dificuldades quando Portugal ingressar na Comunidade Européia. Portugal pode -e tem interesse em ser- ponte do Brasil para Europa. Diz ele.
Terminamos a conversa com a recomendação do mestre de que deveríamos adotar o processo do padre: "botar um tijolo na catedral visualizada e deixar o povo botar o resto".
Saímos convencidos de que Santa Catarina tinha desembarcado em Açores pelos caminhos que até ali tinham sido abertos. Bastava dar continuidade, estimulando os povos de língua portuguesa a conhecer-se melhor através da ponte da educação. A causa da língua comum é um caminho que pode ser trilhado pelas universidades. Ela representa integração com os países africanos como Angola, Moçambique, Guiné, Açores e com a Ásia (Macao e Gôa). A união dos países do terceiro mundo, fora das Américas, (que poderão polarizar com a Espanha) deve começar por aqueles que têm algo comum. Esse algo comum é a língua. Vale a pena fazer a ponte da cultura e ciência contemporâneas, que na busca de suas raízes comuns pode até abrir, de forma mais conveniente, o caminho para os problemas econômicos os quais a todos angustiam e inquietam. O caminho das universidades é mais fácil porque se formam as conexões invisíveis nas trocas de informações culturais e científicas.
Terminado o almoço descansamos um pouco no apartamento de dona Violante, que estava desocupado. Foi uma excelente oportunidade para recarregar as baterias. Depois seguimos viagem.
Deixamos Sesimbra em direção a Setubal, passando pela Serra da Arabida, uma região de calcário, um trecho muito bonito de estrada, passando por olivais, vinhedos, pinheirais (de onde se extrai resinas) e laranjais.
Avista-se, da estrada, o convento dos padres franciscanos (hoje propriedade particular) que mostra, de forma muito bonita, como é que o conjunto foi irregularmente crescendo, na medida das necessidades. É um bonito convento do século XVI, em terras do duque D'Aveiros e hoje é propriedade particular do duque D'Almada. O convento confirma que os franciscanos sempre escolhem lugares muito bonitos enquanto que os beneditinos preferem as quatro paredes de um convento. De lá, uma belíssima vista para o Atlântico.
Chega-se a Setubal. A cidade já foi residência oficial da realeza. O terremoto de 1755 a destruiu e muitas construções não resistiram aos abalos. Entre o que sobrou está o Castelo de São Filipe cuja restauração choca aos olhos se comparado com os nossos padrões. Não tem o rigorismo do ISPHAN no Brasil. Todavia, não é um sumidouro de recursos: é usado como hotel.
Vimos pouco de Setúbal por conta de um pequeno acidente com nosso veículo. Nosso fusquinha foi atingido por outro, causando peque-nos danos, retendo-nos algum tempo no local até que chegassem autoridades para registro do ocorrido. Isto nos obrigou a cortar parte do programa planejado pelo professor. Retornamos a Lisboa passando por uma região muito rica onde, segundo Jorge Agostinho, vive mais de um terço da população do país. É a área de quintas mais bonitas de Portugal.
Lisboa, maio de 1984


3 Comments:
Olá professor Savi. Olhei seu blog e vi que o senhor escreveu um texto sobre Getúlio Vargas. Tem uma coisa sobre o ex-presidente que pouca gente no Brasil sabe. Também olhei no seu perfil e vi que o senhor tem interesse por temas ligados à polícia. Para saber sobre os dois assuntos acima mencionados, visite: www.oficinadeieias54.blogspot.com.
Parabéns pelo seu blog.
Oi Hamilton ! Tenho viajado no que tu escreve ... gosto muitoooo . Um forte abraço . Sou tua fã
Curioso texto, que gostei muito de ler.
O morador do Castelo referido´era Rafael Alves Monteiro, notável sesimbrense que conheci bem, falecido em 1993. Já o cantor Caetano Veloso, que visitou Rafael em 1969, na sua passagem para o exílio londrino, ficara tão impressionado que relatou o episódio no seu livro Verdade Tropical.
A Toca do Ratinho, do meu amigo Carlos Ratinho, também já falecido, encontra-se fechada, e dificilmente reabrirá: localizada no espaço da antiga taberna de Artur "Moiteiro", dificilmente poderá cumprir as exigências legais para estabelecimento de comidas.
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