Blog do Savi

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Local: Florianópolis, Santa Catarina, Brazil

Professor aposentado, com tempo disponível para continuar lendo o que não conseguiu ler na juventude.

novembro 05, 2009

Impressões de Viagens a Alemanha

Mais um Giro pela República Federal da Alemanha. Dessa vez, o convite para ir à RFA, foi feito pelo Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico, DAAD, do Governo Alemão. O evento determinante para o referido convite foi realização de mais uma reunião da Comissão Mista teuto-brasileira, uma rotina diplomática que ocorre alternativamente num e noutro país. Em 1989 a reunião foi realizada em Bonn, capital da então República Federativa da Alemanha.
Para aproveitar a estada naquele país, o DAAD sugeriu contatos com setores que, direta ou indiretamente, se relacionam com o Brasil, dentro do acordo que a CAPES, do Ministério da Educação que têm, como interlocutor na RFA, o Programa Alemão de Intercâmbio Acadêmico, o DAAD. O objetivo dessa reunião foi dar seguimento a uma reunião de rotina denominada de “comissão”e que ocorreu entre as entidades brasileiras que participam no intercâmbio com a RFA. Na prática, o interesse da CAPES, se traduzia em ajustes anuais do programa de bolsas concedidas pelo governo alemão para candidatos a doutorado, troca de professores e de especialistas no âmbito das universidades envolvidas de um e do outro lado. Havia, entre os dois países, uma longa tradição de cooperação nessa área de formação de cientistas. Nessa época eu ocupava o cargo de coordenador de Cooperação Internacional.
Sair do Brasil, na situação em que o país se encontrava, (dívida externa de 110 bilhões de dólares e 46% de inflação mensal) e fim de governo, não era uma situação confortável. Mesmo assim, o meu pedido formal de afastamento do país -uma rotina administrativa- foi autorizado em tempo porque se tratava de uma reunião oficial. A impressão que se tinha, nessas ocasiões, é que as autoridades da Casa Civil, que autorizavam esses afastamentos, imaginavam que os funcionários iriam para o exterior apenas para passear. A cada nova viagem o pedido de afastamento tinha que ser repetido e, mesmo com esse ritual, tinha um bando de brasileiros passeando em nome do governo e, ainda por cima, dizendo bobagens oficias. É bem verdade que esse trabalho dá mais motivação que a média das atividades no Brasil, atrás de uma escrivaninha! Passeia-se, é claro, mas trabalha-se muito!
Politicamente o país estava numa encruzilhada: depois de vinte e nove anos sem eleger diretamente um presidente, chegava-se à reta da eleição com dois candidatos: um jovem, ex-governador do estado de Alagoas, com imagem de um modernista de centro-direita. E, do outro lado, um candidato das esquerdas, originário do movimento sindicalista brasileiro. Esse último -Lula-, polarizou as forças de esquerda. O primeiro, prometia moralizar o país cassando marajás. O outro, apensar da ameaça de fracasso dos sistemas socialistas, prometia arrumar o país apoiado numa ideologia dita mais progressiva. A eleição foi realizada no dia 17 de dezembro de 1989, com esses dois candidatos, que saíram de um balaio de gatos formado por 32 partidos políticos!
Não vi a nem participei da corrida final. Ao término da missão na Alemanha fui passar alguns dias em Londres para ver minhas filhas que estavam com a mãe num programa de doutorado na área médica.
Viajei para a Alemanha pela Lufthansa -LH- num vôo confortável e com um bom serviço que os brasileiros, de forma geral, dizem que só a VARIG costuma oferecer a bordo. Há outras e, entre elas, a LH.
No horário previsto eu já estava fazendo parte das 370 toneladas de massa rumo a Frankfourt, numa uma velocidade de quase mil quilômetros horários. Dormi bem durante a viagem, na parte superior do Boing 477, onde fui alojado. A parte superior é pequena e confortável. Não tem serviço de TV, mas os demais serviços de bordo são quase pessoais. Os bancos são sensivelmente mais largos, o número de cadeiras é menor. Sobe-se por uma escadinha, passando pelo setor da primeira classe. Lá, o tratamento é diferenciado. Dorme-se bem porque há pouco ruído. O tempo em Franfourt, quando o aparelho chegou, estava bom. A cor acinzentada do inicio do inverno denunciava frio, beirando ao zero da escala Célsius.
Desembarquei pela saída "B" do aeroporto -a bagagem foi despachada diretamente para Bonn- e não encontrei o representante do DAAD. Caminhei, conferi o horário de chegada do vôo da VARIG para esperar Dr. Ubirajara e fui ao local indicado no painel para saber qual era a saída oficial do vôo da LH para quem tem bagagem para retirar. É que o aeroporto tem várias saídas e é bem desburacratizado. O aeroporto de Frankfourt, como qualquer outro na RFA, a passagem pela polícia de fronteira é muito fácil. Alguns viajantes apenas mostravam o passaporte sem parar. Quando fui dar o aviso ao pessoal do DAAD que eu acabara de chegar... ouvi o aviso de que alguém me esperava exatamente naquele local. Estávamos há uns 10 metros um do outro.
Foi assim que encontrei Olav, o guia que o DAAD tinha colocado a nossa disposição. Olav era um brasileiro que morava há algum tempo na Alemanha e que prestava serviço de interprete a convidados oficiais do governo. Tínhamos ainda algum tempo antes da chegada do vôo da VARIG pelo qual deveria chegar o diretor da CAPES. A minha passagem, como convidado corria por conta do governo alemão. Por sugestão de Olav, fizemos um passeio no centro da cidade de Frankfourt.
Rever Frankfourt foi muito agradável. Era um domingo e as ruas estavam vazias, como qualquer cidade grande. Os prédios dos bancos denunciavam a força da economia da cidade e do país: enormes, modernos, fortes, torres metálicas arranhando o céu. Eles são imponentes! Os prédios mais antigos resistem ao tempo depois de restaurados da destruição causada na última guerra mundial. A RFA continuava crescendo e com moeda forte, muito forte. Frankfourt é o reflexo da Alemanha.
Fazia frio e ventava um pouco. Dava uma sensação de desconfortável ao caminhar pelas ruas. Passamos pela praça Roma. É um local bonito onde está localizada a prefeitura da cidade. Mereceu algumas fotos. Poucas pessoas circulando: turistas, alemães conversando e bebendo nos bares. Por sugestão de Olav, tomamos um vinho quente com açúcar. Dizem que é tradicional na região. Aliás creio que é uma ótima maneira de consumir vinho de qualidade inferior.
O bar que ele escolheu estava lotado. Alguns casais falavam em voz baixa e com alguns gestos suaves. Quase sussurravam! É, creio, pecado falar alto. Olham-nos com atenção. Penso até que não sabiam em que língua estávamos falando a medir pela atenção que despertávamos. Nós também procurávamos abrigo do frio.
Nessas missões oficiais o DAAD sempre coloca â disposição dos grupos um guia e interprete. Às vezes é um poliglota, como era o caso de Olav. Ele é filho de pais brasileiros, mora na Alemanha há mais de 12 anos e fala -fluentemente- português, inglês, alemão, italiano e francês. Além de conhecer bem a Alemanha é um "expert" em restaurantes!
Constatamos, no decorrer da viagem, que era uma pessoa muito hábil para estabelecer contatos com outras pessoas. Sabe muito bem administrar o tempo, é "safo", não é inconveniente e estava sempre otimista e com boa vontade!
Depois de algum tempo, retornamos ao aeroporto e fomos confirmar o horário de chegada do vôo da VARIG. De lá, fomos para um bar-restaurante da rede Harold, de uma cadeia inglesa. Comemos um pastelão de salmão muito saboroso ou melhor, deliciosíssimo e institucional e fomos esperar pelo Dr. Ubirajara que chegou no horário previsto. Minha passagem foi paga pelo governo alemão e a do diretor da saiu por conta da CAPES. Por isso viajamos em horários diferentes.
Voltando ao bar. Lá, durante nosso lanche, observamos atendentes de origem inglesa e italiana. Olav conversou muito com a italiana. Em poucos minutos ficamos sabendo que a italiana veio da Calabria, que morava há 16 anos na Alemanha e quase não conhecia Frankfourt. Ouviu dizer que é uma cidade muito bonita e só. Desafiada por Olav, falou sobre a Itália. Disse que o pessoal do sul da Itália se comunica melhor e que as pessoas do Norte trabalham mais, mas também são mais chatas! Palavras dela!
Tivemos que esperar ainda uma hora para saída do trem para Bonn. É um trem da LH: confortável, tratamento idêntico ao do avião e o serviço prestado por "ferro-moças" bem treinadas e bonitas!
Chegamos a Bonn com uma chuvinha leve. Não havia neve mas estava frio. O DAAD nos acomodou no Hotel Pullmann, às margens do rio Reno. Depois de acomodados, à noite, Olav nos levou ao restaurante Aennchen, fundado no século XIX por uma mulher. É um dos bons restaurantes de Bonn, ao nível do Maxim’s, segundo Olav. Há ritual para o serviço oferecido: pessoal bem educado, local agradável, cheio de símbolos, entre cartões postais do fim do século, fotos de pessoas famosas e, entre elas, a própria fundadora.
Repousamos bem. Os hotéis na Alemanha têm camas confortáveis com lençóis brancos, cobertas leves e travesseiros enormes e macios que se pode moldurar de acordo com a vontade da pessoa. É bom porque no outro dia, os compromissos seriam marcados, como de costume, em minutos!
No dia seguinte, iniciamos os trabalhos com o Ministério de Relações Exteriores, um dos ministérios que financia o DAAD. Daí, até o fim da jornada, os compromissos foram executados com precisão... alemã!
A chuvinha fria incomodava um pouco. Bonn é uma cidade plana. Dizem que foi escolhida como capital porque Adenauer morava em Colônia e não gostava de ir muito longe para trabalhar!
É interessante a arquitetura de Bonn: moderna, estilo livre, prédios públicos sem forma pré-fixada e muito funcionais. Quase todas as construções com preocupação de conservação de energia para evitar perda de calor e aproveitamento do máximo da luz do dia. O prédio do DAAD -onde tivemos um dia de trabalho- é um exemplo de funcionalidade e de arquitetura moderna.
Depois da reunião de rotina, onde cumprimos a agenda, ponto por ponto, falando com pessoas ligadas a cada assunto, fomos ao restaurante, no próprio prédio. Continuamos a reunião disfarçada de almoço livre oferecido pelos anfitriões.
Esses contatos são importantes. Fica-se sabendo como é que as coisas andam pelo mundo afora. Fala-se de política, economia, situação do Brasil, a posição da Europa 92, a unificação da Alemanha, situação econômica do Brasil e muita coisas que... podem ser ditas. Diplomatas e pessoas que trabalham com área internacional são bastante reservados, mas também bem informadas.
O programa previa uma visita a Fundação Alexandre von Humbold. A entrevista com o pessoal da Fundação Humboldt a AvH, foi interessante. Coloca em evidência o que é planejamento de governo e que existe um projeto de Nação. Enquanto o DAAD cuida da juventude, na formação dos futuros cientistas, a AvH ocupa-se dos pesquisadores "seniors" de bom nível, uma espécie de candidato à Prêmio Nobel. É claro que o resultado em médio prazo é altamente favorável.
Terminado o dia de trabalho, caminhamos um pouco pelo centro da cidade. Bonn é uma cidade limpa e bem arrumada. O comércio fecha as portas às 18:30 sem um minuto de tolerância. As lojas já expunham motivos de Natal, bem ornamentadas e os brinquedos à preços fora de alcance de um terceiro mundista.


UNIFICAÇÃO DA ALEMANHA
A tônica de quase todas as conversas, depois dos compromissos formais, girava em torno da unificação da Alemanha. Existiam, no mínimo, três correntes de pensamento: uma de que a Europa não deixaria a Alemanha unificar-se. Afinal, ela já foi o epicentro de duas guerras. A outra corrente era de que ninguém segurava a unificação porque... o povo queria! Outros, ainda, alegavam, que sob o aspecto econômico, estavam percebendo uma saída para abrir campo de trabalho com alemães e dispensando, aos poucos, os "gastarbeit". Além desses argumentos, ou especulações, havia uma certeza: era apenas uma questão de tempo!
Os países em desenvolvimento, que eram clientes da RFA em programas de cooperação econômica, todavia, tinham um certo medo de que a nova Alemanha canalize os recursos destinados a cooperação apenas para reerguer a Alemanha Oriental, o Leste Europeu e os ajustes dos problemas da unificação da Europa. A minha opinião, à época, era que não iria acontecer nada disso. A Alemanha e outros países europeus manteriam o interesse no Brasil como o mais importante pais da América Latina.
Naquele ano –1989- o muro de Berlim e outras barreiras do comunismo estavam caindo como frutas maduras a algumas como frutas podres. O modelo estava esgotado. A guerra fria estava chegando ao seu fim. Se a Alemanha havia sido penalizada pelos erros do Nazismo e que, certamente, Hitler não havia sido o único culpado, porque prolongar essa agonia? Além do mais, era do conhecimento geral que a Alemanha Ocidental -RFA- e o Japão receberam, como parte da confrontação de pós-guerra, um montão de dinheiro para reconstruir-se. Recursos humanos eles ainda possuíam!
Progrediram bem e rápido porque não tiveram que gastar com armamento nem com exército. O mesmo não aconteceu com o lado Oriental. Havia, no ar, um sentimento de perdão e a Alemanha queria ver suas partes unidas. Era só esperar que iria acontecer.
O compromisso em Bonn havia terminado e nós teríamos -Dr. Ubirajara e eu- novos compromissos em Münster. Münster também foi uma cidade destruída pela guerra. À época da visita vivia de comércio, industria, turismo, universidade e centros de pesquisa. Só não tinha indústria pesada. As cidades alemãs têm muita coisa em comum: limpeza, estilo das casas, baixo nível de ruído e estão ligadas por uma extraordinária rede ferroviária! De lá viajamos para Munique.
Gostei de rever Münster. Essa era a terceira vez que visitava a cidade. Ah, outro ponto comum entre aquele país é que não existem táxis velhos: eram todos robustos automóveis marca Mercedes especiais, de estrutura firme e todos silenciosos. Quando alguém saia do carro, batiam a porta com tanta força que, se aplicada nos nossos carros fabricados no Brasil, desmontaria tudo! Mas não acontecia. A porta fechava firme e não voltava. Já imaginou um alemão batendo a porta de um fusquinha 62 daqui? Além de desmontar o veículo ele seria "xingado" pelo proprietário sendo ele taxistas ou não.
E a sinalização? Repetindo, é coisa de botar inveja! Os avisos de horários de trem estão lá, velhos e confiáveis. Quando ocorre alguma alteração de horário são logo corrigidos. Saindo da estação, as placas de ruas, nas estradas principais, nas secundárias... eles exageram. É por isso que eles sempre têm e confiam nos mapas de rotas de ferrovias ou rodovias!
Pinkus é um restaurante tradicional, com mesas antigas, de tábuas grossas, talhadas até com canivete, e que contam histórias de pessoas -famosas ou não- que passaram por lá. Nas paredes, com caibros â vista, inscrições, em escrita antiga, com frases relacionadas com o bom viver, comer e divertir-se. Enfim, um clima alegre!
Além de boa comida, o local induz a um clima para bons papos. Parece que tem atmosfera própria para fazer as pessoas soltarem a língua: uma espécie de templo a censura fica dormindo e a pessoas se soltam, dizem o que pensam. Não é que a conversa seja coisa de salvar o mundo ou mesmo de transmitir segredos de estado. Fala-se de coisas, de países, de cultura, de comida, de intercâmbio, de problemas solucionados, de desejos de povos e tantas outras coisas. Afinal, estávamos sentamos, à mesa, onde os anfitriões falavam outras línguas e tinham uma visão bastante ampla do mundo em que vivemos.
Terminado o almoço, fomos, à pé, até o endereço do outro compromisso de trabalho. No caminho, observávamos detalhes da arquitetura, adaptada para aproveitar melhor a energia solar.
Terminara a missão em Münster. Pela manhã, no outro dia, mais um aeroporto e, desta vez, com destino a Berlim. Como se sabe, é mais fácil chegar a Berlim de avião. Embora o ideal fosse viajar pela Alemanha de trem, é muito mais complicado por causa das formalidades aduaneiras. Berlim Ocidental ficava numa ilha dentro da Alemanha Oriental e, para chegar lá, de trem, teríamos que passar por território estrangeiro. Mesmo assim, de avião, partindo de Munique, é incerto por causa do tempo. O aeroporto era pequeno e não havia precisão de horário. Os vôos são normais e os aeroportos não têm a mesma suntuosidade das estações ferroviárias. São distâncias curtas. E tinha mais: no caso de viagem a Berlim, somente empresas estrangeiras é que podiam oferecer vôos. Dizem que as linhas ferroviárias são péssimas!
Chegamos ao destino com quase duas horas de atraso e, com isso, alteramos parte de programação prevista para a manhã daquele dia.
Berlim, repetindo, era uma ilha dentro da RDA. Após a guerra, ou mesmo antes de terminá-la, foi assinado um protocolo de ocupação da Alemanha. Por esse protocolo, dada a importância da cidade para a Alemanha, Berlim seria administrada à parte, pelos aliados que venceram as forças de Hitler. Situar-se-ia dentro do território que seria ocupado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, URSS.
A cidade tinha vinte bairros. Desses, oito ficariam para a URSS (A parte mais importante e imponente onde está localizada a Universidade de Humboldt, Catedral, o Portão de Brandemburgo -a Torre Eifel deles- e os prédios principais). Os americanos e ingleses, no espólio, ficaram com seis. Loyola Brandão, em "O Verde que Violentou o Muro" diz que os franceses não gostaram do critério do inventário e assim, houve nova distribuição de responsabilidades. Nessa nova divisão os ingleses cederam dois dos bairros aos eternos inimigos e aliados quando convêm.
Com o passar do tempo, no contexto da Guerra Fria, os americanos quiseram conter o comunismo. Jogaram muito dinheiro através do plano Marshal para recuperar a cidade, “do outro lado”. O efeito demonstração começou a estimular a fuga do lado oriental para o ocidental. Não havia outro caminho: delimitar os territórios. Foi o que fizeram com cercas de arame-farpado e mais tarde levantando muros de concreto.
Na opinião de Loyola "se os russos não fizessem o muro os americanos o fariam" porque foi o maior programa de propaganda anticomunista que se montou no mundo! Isso começou a ocorrer, de fato, em 1948 embora o muro, só tenha sido construído na década de sessenta.
O "muro da vergonha" passou a conter os alemães que circulavam ou que se movimentavam um único sentido: para fora do lado oriental. Dizem as estatísticas que do período de 1949 a 1961 mais de dois milhões de pessoas cruzaram as fronteiras. Desde então, a comunicação com o mundo não comunista passou a ser feito por trem e avião. A ligação aérea e feita dentro de um corredor de 32 quilômetros por empresas não alemães. Monopolizavam o transporte a PANAM, British e Air France.
O muro continuava pintado de -cheio- de "grafitis" com mil desenhos diferentes entre lamúrias escritas em vários idiomas, manifestações políticas contra os comunistas, desenhos de portas falsas, desenhos de brincadeiras diversas. Perdidas, até, algumas obscenidades! O lado oriental, pelo contrário, era limpo, com uma faixa livre -creio que de uns duzentos metros para que os "fugitivos" pudessem ser interceptados ou imobilizados com a sutil solicitação de uma bala de uma arma na mão dos comunistas.
O lado ocidental era impressionante. Não se podia entrar na vida do berlinense quando se está a serviço mas, alguma coisa dava para perceber e entender: dispensa do serviço militar para atrair jovens, injeção de recursos para transformar a região em centro de pesquisa e muitos outros incentivos para fazer a vida melhor naquela ilha de terra. É ainda uma cidade com vida noturna cheia de atrativos.
Foi emocionante ver o muro com uma passagem aberta, fato esse que ocorreu quase junto com outros símbolos do comunismo, no dia 8 de novembro de 1989. Em minha opinião, o muro começou a cair na Polônia e mais tarde, entre outros, com a Perestroika de Gorbatchov e as Quatro Modernizações da China, depois da revolução cultural, que culminou -mais tarde- com o fenômeno "Praça Tianammen " em Pequim.
Berlim Ocidental estava cheia de visitantes do outro lado e, também, de várias partes do mundo. Eles se concentram em vários lugares com preferência na área próxima do portão de Brandemburgo. Os orientais invadiam o outro lado em massas humanas. As primeiras filas ocorriam junto aos bancos para receber 100,00 DM Marcos que o governo da RFA estava dando a cada pessoa que cruzasse, para ensiná-los a comprar. Eles retiravam o dinheiro e os deixava na primeira loja ou, quando não, alguns jovens preferiam ficar em filas nas lojas ou locais que mostravam cenas pornográficas, libertando-se, talvez, de uma repressão que existiu -para muitos- durante toda a sua vida.
Era fácil distinguir o morador do lado oriental: era uma pessoa mais simples, gestos simples, como que um menino do interior chegando à cidade grande: olhava as vitrines com ar de surpresa e como uma grande novidade. Era diferente daquele que olhava uma vitrine específica que lhe interessava. Sentia-se, também, que alguns berlinenses olhavam, com um certo desdém, aos irmãos que circulavam nas ruas com seus carros pequenos e desconfortáveis e quase desmontando sozinhos de tão velhos que eram. Mas isso não o pensamento geral. Pessoas mais idosas, mais maduras, nas universidades, tinham outro ponto de vista: o reencontro entre irmãos, de mesma cultura, que estiveram separados, à força, por vários anos. O reencontro de famílias e de amigos. Pode deixar a imaginação solta!
Aproveitando um final de semana pudemos passear livremente nas imediações do muro. Foi emocionante ver aquela massa humana passando pelo muro, silenciosamente, no local aberto, com os guardas da RDA rindo, com face descontraída, observando livremente, o povo iniciar o domingo no lado ocidental! Tinha-se a impressão que ele trazia uma garra e vontade reprimida por muitos anos: uma espécie de força que ia contagiar o resto da Alemanha Comunista.
Eu acreditava que o principio dos vasos comunicantes ia funcionar. Certamente, mais e mais pessoas cruzariam as fronteiras. Imaginei logo que um "Plano Marshal alemão" para os alemães do lado oriental iria começar: os “DM” mesmo que em pequena quantia de DM 100,00 já era o primeiro passo para iniciar os orientais no consumismo.
Talvez, "haverá trabalho para todos e isso é bom" afirmou alguém durante uma de nossas reuniões de trabalho. Os ocidentais dependeriam menos dos trabalhadores estrangeiros. E foi isso que me assustou.
A minha impressão, pelo que havia escutado aqui e ali, era que o mundo, representado pelos poderosos países da Europa, não queria a unificação da Alemanha. Mas, não tinha dúvidas que era uma questão apenas de tempo. A força cultural era mais forte do que as forças políticas. Afinal, porque somente o lado Oriental tinha que pagar a conta pelos erros de Hitler?
Nessa caminhada no domingo pela manhã, vi de perto algumas pessoas com marretas e talhadeiras, tirando pedaços de cimento das placas do muro. Vi pessoas fotografando compulsivamente e sendo fotografadas. Próximo ao Portão de Brandemburgo a concentração era maior. Um pouco mais além, próximo ao rio, uma quantidade enorme de cruzes marcando lugares onde pessoas foram "fuziladas" ao tentar fugir para o lado ocidental. Algumas cruzes tinham datas bem próximas à época da abertura do muro.
Resolvemos almoçar no lado oriental. Foi uma decisão dolorida. Tomamos o metro e, em poucos minutos, estávamos saltando do metrô em uma estação suja e sem conforto, sem cartazes nas paredes, corredores mal cheirosos e também sujos e uma fila interminável para carimbar o passaporte! Os vagões do metro também não eram tão limpos! Até agora eu não entendi: pelo muro passava-se livremente. Para chegar ao outro lado, de metrô, seguia-se ainda o velho ritual alfandegário. Talvez a ordem ainda não tivesse chegado ao chefe dos serviços de fronteira.
Incrível a paciência que as pessoas tinham com as filas. Os agentes do controle de fronteira não tinham nenhuma vontade de resolver os problemas. Pareciam indiferentes a tudo e a todos! Depois de uma hora e meia é que conseguimos cruzar a fronteira. Consolava-nos, todavia, a chance de conversar com pessoas de várias partes do mundo e que demonstravam conhecer o Brasil via fenômeno inflação e dívida externa que, nessa época era notícia em todo o mundo. Nós tínhamos como vizinhos de fila italianos, noruegueses, ingleses e uma americana. Todos foram a Berlim para ver, de perto, o símbolo de uma época muito importante para a liberdade mundial. Não reclamaram da fila. Aquilo era também a prova que eles gostariam de ver. Sentia-se que eles estavam conscientes de que estavam participando de um marco na história do mundo.
No momento em que escrevia essas notas chega-nos a notícia de que o muro estava sendo totalmente demolido. Vi pela televisão, o desmonte, próximo ao portão de Brandemburgo.
Testemunhamos, também, um momento histórico importante para a humanidade. Caiu o símbolo da Guerra Fria. Caiu o símbolo de receitas econômicas socialistas. Sabe-se, hoje, que o socialismo tem que passar por profundas modificações e que o capitalismo não está resolvendo os problemas do mundo. Haverá um novo modelo de sociedade onde as fronteiras geográficas poderão mudar sem guerras e as distâncias passarem a ser medidas em horas de vôo e não em quilômetros.
As fronteiras alfandegárias estão mudando. Os problemas do mundo passam a interessar a todos -como ecologia, alimentação e energia - e cresce a consciência de que esse mundo é muito menor do que pensamos! Ele não é infinito.
Da estação do metro até o local realizamos uma caminhada belíssima passando pela rua principal onde os monumentos da poderosa Berlim ainda estavam lá: Universidade de Humboldt, Catedral, prédios públicos, as pontes sobre o rio. E a presença dos prédios baixos e longos marcando o período de pós-guerra.
O retorno também foi de metro. Desta vez Olav nos conduziu por caminhos reservados à autoridades diplomáticas para evitar as enormes filas. No outro dia, cedo, deixamos o hotel e fomos ao aeroporto Tegelonde tomaríamos um avião para Munique. Chegamos a Munique no horário previsto, vôo normal.
Nossa missão de trabalho continuava. Além da reunião com dirigentes de escolas e universidades, havia ainda a reunião da Comissão mista teuto-brasileira em Bonn. Bem, os detalhes dessa reunião estão nos relatórios técnicos.




MUNIQUE

Os compromissos que tínhamos em Munique foram centrados na Universidade de Munique e na Escola Superior de Tecnologia (FHS), duas instituições de ensino superior de filosofias completamente diferentes .....


Extraído de “ Viagens a Alemanha” (Não foi publicado)
de
Hamilton Savi