Blog do Savi

Aqui é um lugar neutro. Serão discutidos temas como: política, maçonaria, vida, viagens, fotografia, e outros assuntos que poderão vir...Seja bem vindo!

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Local: Florianópolis, Santa Catarina, Brazil

Professor aposentado, com tempo disponível para continuar lendo o que não conseguiu ler na juventude.

abril 25, 2010

Londres -South Kinsington

Era um dia manhoso de um sábado. Olhando da janela do meu apartamento, no YMCA, para o poente, parecia que ia chover, mas não choveu e deu um dia muito bonito. Os ingleses gostam de falar sobre o tempo e não é sem razão: ele muda com muita rapidez.

Resolvi dedicar o dia ao bairro de South Kinsigton. Comecei por mais uma visita ao Museu de História Natural. Esse museu como muitos outros em Londres, pode ser visitado com freqüência porque sempre há alguma coisa nova para ver, ou, pelo menos um novo arranjo. Fiquei quase o tempo todo que permaneci lá, na área do museu da terra. É difícil descrer. Eu estava em frente a uma enorme escada que dava acesso ao segundo piso onde a escada terminava numa enorme bola azul, simbolizando a Terra. Bem, quando entrei nesse mundo, a impressão que tive foi a de fazer uma viagem ao centro da terra: vulcões, cortes, geração de maremotos, penhascos levando o observador a percorrer, através de fotografias, filmes e efeitos de sons e imagens, virtualmente através de uma visão das energias da superfície e do centro da terra.

No seu interior misturavam-se vozes de narradores com reprodução de sons de marés, de vulcões como se estivéssemos ouvindo a pulsação do Planeta Terra.

Depois de algum tempo, lentamente, começo a deixar o museu. O movimento de pessoas era constante e pessoas de todas as idades e de todas as nacionalidades coloriam as várias sessões do museu. Grupos de pessoas olhando, extasiados, na sessão dos dinossauros ou em umma simulação da selva amazônica num museu em Londres e assim por diante.

Volto à realidade, deixo o museu e começo a caminhar na região. Gosto do astral daquele bairro. Quando passei pela igreja da Imaculado Coração de Maria estava sendo celebrado um casamento. Parei, olhei, entrei e participei da cerimônia. A medir pelos dois Rolls Royce que estavam à serviço para transporte dos noivos, induzia a pensar que se tratava de algum caixa alta casando. De fato, haviam muitas pessoas bem vestidas e um casamento realizado com muita pompa. Fiquei algum tempo, aos fundos da igreja, ouvindo o coral que libertava o pensamento para sonhar um pouco, cruzando os mares, com muita facilidade e libertando-se do tempo. Lembrei-me do gaúcho Lupicinio Rodrigues, quando dizia que “o pensamento parece uma coisa atôa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar...”

Saí sem cumprimentar o jovem casal, mas mentalmente, desejei uma vida longa e feliz, com filhos e uma velhice rodeada de parentes e amigos!

Sai para caminhar sem preocupação de tempo. Procurava um lugar para almoçar e, nesse caso, optei por restaurante onde podia ficar sentado, sem pressa, para poder recuperar as energias. Passo pela Harrod’s. Não resisto a uma entrada e me detenho, depois de percorrer os riquíssimos corredores, na sessão de vinhos. Nem vou citar marcas que anotei, mas vi preços que chegavam a 700 Pounds e mais. Claro, não é uma casa especializada em vinhos e penso existem até vinhos muito mais caros, claro, mas em casas especializadas. Esses estavam protegidos por um armário com portas de vidro sob chave. Os vinhos menos especiais estavam lá, livres para quem quisesse tocar.
Depois do almoço, que naquele dia foi bem tarde, continuei caminhando livremente. A arquitetura daquela região é harmoniosa: prédios bonitos, alguns deles de tijolos à vista, região limpa, muitas flores nas ruas mais movimentadas e um pouco da história recente de Londres.

Museu de História Natural, Victoria and Albert Museum, Imperial College, Royal Albert Hall, Royal Geographic Society... sem contar a beleza da combinação de folhagens às entradas dos prédios, parques, pequenos negócios, fachadas ornamentadas com flores, “pubs” jardins, pequenos recantos que não constam nos guias turísticos. É gostoso andar por lá sem ter que gastar fortunas porque os ingleses não cobram nada para olhar embora não seja muito barato fazer compras.

Quando tomei o ônibus para retornar ao meu cantinho no YMCA, falei com um português que trabalhava num restaurante e que educava seus filhos em Londres. Ele disse que em relação a Portugal, as chances de emprego em Londres são maiores do que na sua terra natal. Ele disse também que não poderia dar, aos seus filhos, em Portugal, a educação e formação que está dando em Londres. Portugal, para ele, só a passeio!

Extraido de Cadernos de Viagem- Londres e Arredores
Hamilton Savi

abril 23, 2010

Agenor do Rio Fortuna

Eu havia retornado de um passeio com Ivone e Hadilton, a localidade de Amola Faca, em busca de um bom ângulo da Serra Geral e, em especial a GURITA, o monte símbolo de Timbé do Sul. Alemão e Estecanela me convidaram para um passeio ao Fundão do Rio Fortuna. Em seguida, no Jeep de Estecanela, fomos em direção à Figueira e, nosso destino final, Fundão do Rio Fortuna. Na viagem, entre uma parada e outra, Alemão disse que queria que eu conhecesse um cara que morava no meio do mato. Não falou muito mais e nem criou muita expectativa. Assim, seguindo estradas que só carros especiais podem transitar, chegamos, finalmente, ao território de um morador que fiquei sabendo ser de um amigo deles de nome Agenor.

Agenor morava nas encostas da Serra da Rocinha, próximo à cidade de Timbé do Sul, numa região conhecida como Fundão do Rio Fortuna, no mesmo município. Agenor tinha a idade que parecia ter: meio século mais 4 anos. Era um homem magro, cor morena, tipo matuto e já não tinha mais todos os dentes. Ao lado de sua casa, construída em madeira, envelhecida pelo tempo, havia um pequeno paiol onde ele armazenava os produtos de suas colheitas: milho, bananas, abóboras e outros produtos que servem para sua alimentação humana e, também, dos animais domésticos que ele criava e que circulam livremente e acomodam-se ao redor da casa. Animais domésticos como: patos, galinhas, porcos convivem numa harmonia dysneana. Um gato preto, sentado à escada da porta frontal, assumia o papel de guardião principal e afastava, também, os ratos que eventualmente se aproximassem da casa. Dois cachorros de caça, já amigos de meus amigos, acompanhavam todos os movimentos, aparentemente indiferentes ao que se passava. Creio que eles perceberam que os amigos de seu patrão se aproximaram, permaneceram calados e sacudia o rabo como manifestação de alegria.

Seu ninho estava implantado no inicio da floresta, ponto final da estrada -pouco mais de um caminho- que ligava a Timbé. Na frente da casa, ao lado de um riacho, Agenor mantinha uma pequena mangueira, improvisada, porém firme, construída com ripas de madeira fina e dispostas horizontalmente para prender os porcos selecionados para abate.

Como ele mesmo nos disse mais tarde, antes de entrar na mangueira, os animais cresciam soltos no mato, alimentando-se do que encontram pelo chão, nas andanças por baixo das árvores, coisas como: bagas de palmito, frutas silvestres, raízes ou mesmo da invasão de algumas roças, quem sabe.

Agenor não estava em casa quando nós chegamos e, desta forma, tivemos que esperar por alguns minutos. Ele foi avisado de nossa chegada pela buzina do Jeep, único veículo motorizado que tinha condições de chegar ao território do Agenor. De fato, não havia passado ainda mais de um quarto de hora quando, quase que misteriosamente, através de um caminho que ligava à floresta próxima a sua casa, Agenor apareceu com um enorme balaio às costas, que na região era chamado de “derla”. A derla é um balaio tipo cone truncado que o trabalhador rural usa para transportar desde milho, ração, frutas e mil coisas às castas. Ele contém duas tiras de couro ou outro material, que prende aos ombros. Agenor portava, ainda, um facão enorme na cintura e trazia, na derla, uma carga de bananas. A derla permite que as mãos fiquem livres. Assim, em uma mão ele ainda carregava uma foice o que o auxiliava para equilibrar-se nas descidas das encostas. Para ajustar o centro de gravidade, Agenor andava um pouco curvado para equilibrar a carga de mais de oitenta quilos de frutas.

Agenor apareceu no Portal da Floresta vestindo uma camisa de malha vermelha, surrada pelo tempo, calçando botas de borracha. A calça, já com muitos rasgos, desde há muito não era lavada e, por isso, era difícil definir-lhe a cor original.

O eremita ficou contente quando viu os amigos. Sem dificuldades, acomodou a cesta de bananas no paiol e colocou-se à vontade. Aos poucos, e de forma descontraída, estimulado por Alemão, seu velho amigo, contou algumas histórias de sua experiência de vida no Fundão do Rio Fortuna, em terras, que desde há muito, são suas por direito de usucapião.

Agenor nunca saiu de lá para conhecer outros lugares. Contam que já foi a Criciúma, mas ele não vê necessidade de sair de seu canto. Fundão do Rio Fortuna é o seu mundo! Não é um mundo pequeno. Dizem ser um território de mais de 300 hectares de terra, o que é muito para a região!

A rede elétrica, dois fios, termina em sua casa e serve para alimentar uma única lâmpada de 15 ou 25 watts para iluminar a sala-cozinha de sua modesta casa. Mal dá para ver a pia de madeira onde ele lava a minguada louça. Próximo a janela da cozinha, um fogão à lenha, com uma panela de feijão cozido no dia anterior, uma espingarda dependurada à parede, uma mesa sem toalha num canto da sala. Na casa, ainda, um modestíssimo quarto, onde estavam empilhados os utensílios de cama e algumas roupas, representam todos os seus equipamentos para seu conforto. É tudo o que ele tinha e, certamente, precisa. Sobre o fogão, para ser defumado com o calor e a fumaça, alguns pedaços de carne de tatu, paca e outros animais que ele mesmo caça. Só caça como ele disse o que necessita para comer. Um pequeno rádio, com as baterias já descarregadas, simbolizava a sua ligação com o mundo civilizado.

Agenor deve acordar, a cada dia, com o ruído de um riacho -o rio Fortuna- que passa em frente à sua casa, e com o canto dos pássaros e dos ruídos da floresta: os animais do dia e da noite. Pela manhã, devem somar aos sons dos animais domésticos reclamando seu alimento. À noite, acompanha a movimentação e comunicação dos animais selvagens, seguindo-os, mentalmente a cada movimento daqueles que ele conhece. Sabe, também, de suas rotinas. Nos dias de neblina, pela manhã, ele se vê envolto em um manto esbranquiçado e observa de forma serena, a sua luta com o Sol. Nos dias de chuva forte, vê o seu riacho transformar-se em rio violento e caudaloso. Sabe, no entanto, que a água escoa rapidamente para o mar e que ele continuará ali, feliz e solitário. Estimulado, conta histórias, as suas histórias!

(Extraido de "Cadernos de Viiagem -Fim de Semana em Timbée do Sul"

abril 20, 2010

D´Ávila

Conheci D'Ávila num restaurante de comida natural, desses a que a gente vai para purificar um pouco o estômago e o corpo para desintoxicar para viver um pouco mais. Lá estava ele: um tipo baixinho, meio gordinho, saudável, aparentemente alheio ao mundo. Falei com ele. Conversamos muito, ficamos amigos à primeira vista. Contou-me seus planos. Queria mudar o mundo com as mãos. Queria sobreviver com o poder das mãos. Queria libertar-se com o uso das mãos. Queria libertar o gênio, o poder que estava retido nas mão da humanidade: o artesanato. Para ele, estava se hibernando, tinha que ser acordado, desenvolvido. Não aquele artesanato de cinto de couro ou bolsinha que existe em qualquer parte. Não, ele queria o artesanato que ajudasse o homem a viver melhor, com mais conforto, com mais criatividade.

D'Avila atropelava-se com a torrente de suas próprias idéias. Era preciso colocar-lhe sapatos de chumbo para ele só sair ao ar depois de muita seleção de energia. Cavava seu próprio espaço para difundir suas idéias em qualquer parte do Brasil. O Grupo "a" daqui, o "b" dali, o "k" de lá e, finalmente, Brasília pedia sua ajuda.

Não havia mais espaço para ele junto ao Governo do Estado a que estava vinculado. Zuleika -diretora do Departamento de Assuntos Culturais- fez um grande esforço para trazê-lo ao nosso convívio universitário. Conseguimos, sob forma de empréstimo, transferí-lo. Em seguida, um decreto do novo governador, exigindo a o recolhimento de todos os funcionários os seus lugares, obrigaria a D' Ávila a desconetar as asas e grudá-las em um cabide do tempo e voltar à sua prisão, numa gaiola que nem sequer era dourada. Todo fim de ano essa angústia o atormentava pois havia a necessidade de movimentar toda a estrutura burocrática para que com ele pudesse conviver mais de perto com o trabalho que ele tanto amava.

Assim, com esse turbilhão de idéias, com esse caminhão de angústias a cada final de ano e agora, também com muito serviço pela frente, com a Nova República, viaja muito nervoso, para o Rio de Janeiro. Lá iria recuperar suas energias, rever seus familiares e voltar para continuar a batalha mas... Não voltou.
Ontem, no final da tarde, ligando o carro para ir para a casa, no último dia útil do ano, quando todos já tinham se despedido, quando muitas pessoas superticiosas -com trajes brancos e amarelo- já não estavam mais lá, chega um telegrama de Brasília. O telegrama comunicava a aprovação de seu tão esperado projeto. Outro -de um alto funcionário- elogiava seu trabalho. Quando já quase não havia ninguém na universidade, quando ninguém mais fazia nada com as mão, Ivo -o chefe do cerimonial- pergunta-me se eu conhecia D'Ávila. Claro que conheço - respondi. Ele acaba de falecer no Rio de Janeiro. Ponto.

D'Ávila nunca falava de seus problemas particulares. Ele sempre preferiu escudar-se no trabalho, falando das coisas em que ele acreditava. Pouco das coisas que fez, muito do que ainda tinha para ser feito. Não me parecia uma pessoa feliz por dentro. Parecia-me uma pessoa nervosa que ficava um pouco mais calma diante de um trabalho com as mão.

Não sei ainda como ele viajou para o outro mundo. Sei apenas que ele acreditava em outro...

É, um instante pode ser uma eternidade. O que é o tempo para nós? Cem anos? Dois mil anos? Quatro mil anos? Dez milhões de anos? No tempo cósmico nosso tempo pode ser uma estrela cadente. No tempo do homem poderemos viver o tempo de uma estrela. Nosso tempo de cada um vivemos o que temos que viver, vivemos o tempo que for o nosso tempo sem que ninguém nos avise quando é que vai terminar ou se já estamos vivendo com um pouco de tempo emprestado.

Às vezes me sinto como se estivesse caminhando dentro de um túnel de vidro, com liberdade de fazer coisas, de ver o que está acontecendo do outro lado, com imagem destorcida, dependendo da posição da lente nos olhos e naquela formada pelo próprio túnel. Se caminharmos para trás veremos o já visto ou realizado. Se caminharmos para frente temos a certeza de que em um determinado momento o túnel acaba e... se cai num abismo.

Os nossos paraquedas construídos com as imagens da ou das religiões, das nossas crenças, poder atenuar o impacto ou nos colocar na mão uma lanterna ou talvez até nos colocar naquilo que sobrou algum código para nos comunicar com os nossos amigos que já se foram, se ainda estiverem por lá, ou com novos amigos. Poderemos ter que viver no inferno de nossas consciências ou no Céu que nos preparamos aqui mesmo, aprendendo a viver em paz com a consciência.

D’Ávila vivia. Só não quis Deus que na hora de viajar, na sua última viagem, no seu bota-fora, estivesse com seus parentes, que com toda a crítica que se possa fazer, são eles que devolvem para a terra a parte material que não pode viajar com a alma. Descanse em paz. Aqui você fez o que pôde. Esperneou, sofreu e amou. Os que ficaram aqueles que estavam mais próximos de ti, tiveram um choque de Ano Novo. É sempre bom para começar algo de novo. Paz na tua nova morada!
Hamilton Savi
30.12.85

Florianópolis, 10 de janeiro de l986.
(manhã cedo)

Amigo Hamilton,

Gostei muito da tua oração fúnebre para o D'Ávila, em particular a tua colocação da mão ancestral do D'Ávila. Teria aparecida uma página a mais sobre a mão. Pois D'Ávila viajou pelo mundo, falava línguas, vira e ouvira muita gente, apreciava como poucos a obra das mão da humanidade.
Hoje a mão desprezada como o foi sempre desde a era de Tubalkaim -o pai ancestral dos ferreiros-. A mão do caçador fora mais potente do que a do agricultor Caim e mais do que a do Tubalkaim e a do Vulcano e Prometeu, Osiris e Imnoter, que Fazoath e Alejadinho. Foi a terrível passagem do paleolítico ao neolítico. O caçador dominou os animais pela azagaia e mais tarde pela flecha, foi a dos nossos índios também. Veio depois os D'Ávila, os fabricantes de artefatos, os artesãs, não. Mão da terra agrícola, mãos do pescador, mãos os dos senhores-escravos da poda das pontes e das catedrais. Mãos dos artesões do bambu e do cipó, mãos do tecido, mãos da terra e do remo, charrua.
O trabalho foi sempre possível, por isso desprezado pois os que não trabalhavam tinham o poder dos que trabalhavam. Isto é ainda assim. Fico estarrecido pelo que D'Ávila e Cascaes mostraram, da pena enorme do poema imenso da mãos nos engenhos de farinha da Ilha de Santa Catarina. Pena enorme é da rendeiras. E o salário do engenho e da renda é a pobreza. O sofrimento, a bucólica e sinistra imagem que busca o turista que vem de longe ver a obra símbolo dos seus ancestrais. Sempre foram escravos os nossos artesões, durante 10 a 12 mil anos que durasse a era do neolítico é era mecânica. É a mão que corta e divide a sociedade, o poder das mãos que lavram a terra, a pedra, o tecido, o fogo e as que lavram papel e a fita, o sulco do disco do computador.
E a mão é também, o pé, o que garante sempre a verticalidade, o pé que libertou a mão, o pé que é então e mãe das mãos.
Quanto a sua oração sobre a morte, o tempo e a passagem para o outro mundo, a morte súbita do D'Ávila, é outro assunto. É o encontro pessoal da vida consciente com a morte, o fim do espaço. É outra dimensão do que falava o D'Ávila.
Eu mesmo o escutei em viagens até Brasília, no ônibus leito, em l983. Levava então seus projetos e tinha a sensação amargo-doce do homem do neolítico, do Tubalkain e do Vulcano. Fascinavam-me a colocação dele, na pura tradição dos companheiros construtores das catedrais. Mas a amargura, também, de ali estão lendo um texto sem trabalho do passado desligado da era tecnológica que estamos vivendo, a da eletrônica, além de estar já desligado da era elétrica e mesmo da do motor à explosão inteira. Ele não via Vulcano no teclado de um computador e no Kokpit do Araão.
Eu disse para ele no ônibus, lá em Belo Horizonte, de que a chance do artesanato era a da sua associação com a tecnologia contemporânea.
Caso não, era um pouco fechar as portas da sociedade aos condenados da terra que hoje são chamados bóia frias, os 90% dos brasileiros. A UFSC trabalha sobretudo para os 10% outros, dizia o D'Ávila não sem certa amarga razão.
Ele queria uma Universidade mesmo, porém a das mãos e dos pés também. Era de outra época, mas seu testemunho, embora soasse como o de uma balde furado, batia de cheio na nossa grande consciência de expulsos recentes da era da mecânica. O Mito do Paraíso perdido, é vivo como todos os mitos da Humanidade.
Ele queria de certo que levássemos conosco pelo menos os instrumentos do nosso paraíso perdido. E é um pouco o que também o Ghandi e o Maotse e tantos outros quiseram e fizeram. Nisto eu também concordo, sob pena de perder raízes e de subirmos pelos ares por falta do lastro de nossas obras -os que nos criaram e geraram-.
Amizades e parabéns
Arlindo Stefani

PS:
D'Ávila fazia parte da Uve/86 fascinado pelas oficinas dos carijós do Pântano Sul e pelos engenhos que nutriram Santa Catarina e seus hóspedes, forasteiros, viajantes e ladrões.