Agenor do Rio Fortuna
Eu havia retornado de um passeio com Ivone e Hadilton, a localidade de Amola Faca, em busca de um bom ângulo da Serra Geral e, em especial a GURITA, o monte símbolo de Timbé do Sul. Alemão e Estecanela me convidaram para um passeio ao Fundão do Rio Fortuna. Em seguida, no Jeep de Estecanela, fomos em direção à Figueira e, nosso destino final, Fundão do Rio Fortuna. Na viagem, entre uma parada e outra, Alemão disse que queria que eu conhecesse um cara que morava no meio do mato. Não falou muito mais e nem criou muita expectativa. Assim, seguindo estradas que só carros especiais podem transitar, chegamos, finalmente, ao território de um morador que fiquei sabendo ser de um amigo deles de nome Agenor.
Agenor morava nas encostas da Serra da Rocinha, próximo à cidade de Timbé do Sul, numa região conhecida como Fundão do Rio Fortuna, no mesmo município. Agenor tinha a idade que parecia ter: meio século mais 4 anos. Era um homem magro, cor morena, tipo matuto e já não tinha mais todos os dentes. Ao lado de sua casa, construída em madeira, envelhecida pelo tempo, havia um pequeno paiol onde ele armazenava os produtos de suas colheitas: milho, bananas, abóboras e outros produtos que servem para sua alimentação humana e, também, dos animais domésticos que ele criava e que circulam livremente e acomodam-se ao redor da casa. Animais domésticos como: patos, galinhas, porcos convivem numa harmonia dysneana. Um gato preto, sentado à escada da porta frontal, assumia o papel de guardião principal e afastava, também, os ratos que eventualmente se aproximassem da casa. Dois cachorros de caça, já amigos de meus amigos, acompanhavam todos os movimentos, aparentemente indiferentes ao que se passava. Creio que eles perceberam que os amigos de seu patrão se aproximaram, permaneceram calados e sacudia o rabo como manifestação de alegria.
Seu ninho estava implantado no inicio da floresta, ponto final da estrada -pouco mais de um caminho- que ligava a Timbé. Na frente da casa, ao lado de um riacho, Agenor mantinha uma pequena mangueira, improvisada, porém firme, construída com ripas de madeira fina e dispostas horizontalmente para prender os porcos selecionados para abate.
Como ele mesmo nos disse mais tarde, antes de entrar na mangueira, os animais cresciam soltos no mato, alimentando-se do que encontram pelo chão, nas andanças por baixo das árvores, coisas como: bagas de palmito, frutas silvestres, raízes ou mesmo da invasão de algumas roças, quem sabe.
Agenor não estava em casa quando nós chegamos e, desta forma, tivemos que esperar por alguns minutos. Ele foi avisado de nossa chegada pela buzina do Jeep, único veículo motorizado que tinha condições de chegar ao território do Agenor. De fato, não havia passado ainda mais de um quarto de hora quando, quase que misteriosamente, através de um caminho que ligava à floresta próxima a sua casa, Agenor apareceu com um enorme balaio às costas, que na região era chamado de “derla”. A derla é um balaio tipo cone truncado que o trabalhador rural usa para transportar desde milho, ração, frutas e mil coisas às castas. Ele contém duas tiras de couro ou outro material, que prende aos ombros. Agenor portava, ainda, um facão enorme na cintura e trazia, na derla, uma carga de bananas. A derla permite que as mãos fiquem livres. Assim, em uma mão ele ainda carregava uma foice o que o auxiliava para equilibrar-se nas descidas das encostas. Para ajustar o centro de gravidade, Agenor andava um pouco curvado para equilibrar a carga de mais de oitenta quilos de frutas.
Agenor apareceu no Portal da Floresta vestindo uma camisa de malha vermelha, surrada pelo tempo, calçando botas de borracha. A calça, já com muitos rasgos, desde há muito não era lavada e, por isso, era difícil definir-lhe a cor original.
O eremita ficou contente quando viu os amigos. Sem dificuldades, acomodou a cesta de bananas no paiol e colocou-se à vontade. Aos poucos, e de forma descontraída, estimulado por Alemão, seu velho amigo, contou algumas histórias de sua experiência de vida no Fundão do Rio Fortuna, em terras, que desde há muito, são suas por direito de usucapião.
Agenor nunca saiu de lá para conhecer outros lugares. Contam que já foi a Criciúma, mas ele não vê necessidade de sair de seu canto. Fundão do Rio Fortuna é o seu mundo! Não é um mundo pequeno. Dizem ser um território de mais de 300 hectares de terra, o que é muito para a região!
A rede elétrica, dois fios, termina em sua casa e serve para alimentar uma única lâmpada de 15 ou 25 watts para iluminar a sala-cozinha de sua modesta casa. Mal dá para ver a pia de madeira onde ele lava a minguada louça. Próximo a janela da cozinha, um fogão à lenha, com uma panela de feijão cozido no dia anterior, uma espingarda dependurada à parede, uma mesa sem toalha num canto da sala. Na casa, ainda, um modestíssimo quarto, onde estavam empilhados os utensílios de cama e algumas roupas, representam todos os seus equipamentos para seu conforto. É tudo o que ele tinha e, certamente, precisa. Sobre o fogão, para ser defumado com o calor e a fumaça, alguns pedaços de carne de tatu, paca e outros animais que ele mesmo caça. Só caça como ele disse o que necessita para comer. Um pequeno rádio, com as baterias já descarregadas, simbolizava a sua ligação com o mundo civilizado.
Agenor deve acordar, a cada dia, com o ruído de um riacho -o rio Fortuna- que passa em frente à sua casa, e com o canto dos pássaros e dos ruídos da floresta: os animais do dia e da noite. Pela manhã, devem somar aos sons dos animais domésticos reclamando seu alimento. À noite, acompanha a movimentação e comunicação dos animais selvagens, seguindo-os, mentalmente a cada movimento daqueles que ele conhece. Sabe, também, de suas rotinas. Nos dias de neblina, pela manhã, ele se vê envolto em um manto esbranquiçado e observa de forma serena, a sua luta com o Sol. Nos dias de chuva forte, vê o seu riacho transformar-se em rio violento e caudaloso. Sabe, no entanto, que a água escoa rapidamente para o mar e que ele continuará ali, feliz e solitário. Estimulado, conta histórias, as suas histórias!
(Extraido de "Cadernos de Viiagem -Fim de Semana em Timbée do Sul"
Agenor morava nas encostas da Serra da Rocinha, próximo à cidade de Timbé do Sul, numa região conhecida como Fundão do Rio Fortuna, no mesmo município. Agenor tinha a idade que parecia ter: meio século mais 4 anos. Era um homem magro, cor morena, tipo matuto e já não tinha mais todos os dentes. Ao lado de sua casa, construída em madeira, envelhecida pelo tempo, havia um pequeno paiol onde ele armazenava os produtos de suas colheitas: milho, bananas, abóboras e outros produtos que servem para sua alimentação humana e, também, dos animais domésticos que ele criava e que circulam livremente e acomodam-se ao redor da casa. Animais domésticos como: patos, galinhas, porcos convivem numa harmonia dysneana. Um gato preto, sentado à escada da porta frontal, assumia o papel de guardião principal e afastava, também, os ratos que eventualmente se aproximassem da casa. Dois cachorros de caça, já amigos de meus amigos, acompanhavam todos os movimentos, aparentemente indiferentes ao que se passava. Creio que eles perceberam que os amigos de seu patrão se aproximaram, permaneceram calados e sacudia o rabo como manifestação de alegria.
Seu ninho estava implantado no inicio da floresta, ponto final da estrada -pouco mais de um caminho- que ligava a Timbé. Na frente da casa, ao lado de um riacho, Agenor mantinha uma pequena mangueira, improvisada, porém firme, construída com ripas de madeira fina e dispostas horizontalmente para prender os porcos selecionados para abate.
Como ele mesmo nos disse mais tarde, antes de entrar na mangueira, os animais cresciam soltos no mato, alimentando-se do que encontram pelo chão, nas andanças por baixo das árvores, coisas como: bagas de palmito, frutas silvestres, raízes ou mesmo da invasão de algumas roças, quem sabe.
Agenor não estava em casa quando nós chegamos e, desta forma, tivemos que esperar por alguns minutos. Ele foi avisado de nossa chegada pela buzina do Jeep, único veículo motorizado que tinha condições de chegar ao território do Agenor. De fato, não havia passado ainda mais de um quarto de hora quando, quase que misteriosamente, através de um caminho que ligava à floresta próxima a sua casa, Agenor apareceu com um enorme balaio às costas, que na região era chamado de “derla”. A derla é um balaio tipo cone truncado que o trabalhador rural usa para transportar desde milho, ração, frutas e mil coisas às castas. Ele contém duas tiras de couro ou outro material, que prende aos ombros. Agenor portava, ainda, um facão enorme na cintura e trazia, na derla, uma carga de bananas. A derla permite que as mãos fiquem livres. Assim, em uma mão ele ainda carregava uma foice o que o auxiliava para equilibrar-se nas descidas das encostas. Para ajustar o centro de gravidade, Agenor andava um pouco curvado para equilibrar a carga de mais de oitenta quilos de frutas.
Agenor apareceu no Portal da Floresta vestindo uma camisa de malha vermelha, surrada pelo tempo, calçando botas de borracha. A calça, já com muitos rasgos, desde há muito não era lavada e, por isso, era difícil definir-lhe a cor original.
O eremita ficou contente quando viu os amigos. Sem dificuldades, acomodou a cesta de bananas no paiol e colocou-se à vontade. Aos poucos, e de forma descontraída, estimulado por Alemão, seu velho amigo, contou algumas histórias de sua experiência de vida no Fundão do Rio Fortuna, em terras, que desde há muito, são suas por direito de usucapião.
Agenor nunca saiu de lá para conhecer outros lugares. Contam que já foi a Criciúma, mas ele não vê necessidade de sair de seu canto. Fundão do Rio Fortuna é o seu mundo! Não é um mundo pequeno. Dizem ser um território de mais de 300 hectares de terra, o que é muito para a região!
A rede elétrica, dois fios, termina em sua casa e serve para alimentar uma única lâmpada de 15 ou 25 watts para iluminar a sala-cozinha de sua modesta casa. Mal dá para ver a pia de madeira onde ele lava a minguada louça. Próximo a janela da cozinha, um fogão à lenha, com uma panela de feijão cozido no dia anterior, uma espingarda dependurada à parede, uma mesa sem toalha num canto da sala. Na casa, ainda, um modestíssimo quarto, onde estavam empilhados os utensílios de cama e algumas roupas, representam todos os seus equipamentos para seu conforto. É tudo o que ele tinha e, certamente, precisa. Sobre o fogão, para ser defumado com o calor e a fumaça, alguns pedaços de carne de tatu, paca e outros animais que ele mesmo caça. Só caça como ele disse o que necessita para comer. Um pequeno rádio, com as baterias já descarregadas, simbolizava a sua ligação com o mundo civilizado.
Agenor deve acordar, a cada dia, com o ruído de um riacho -o rio Fortuna- que passa em frente à sua casa, e com o canto dos pássaros e dos ruídos da floresta: os animais do dia e da noite. Pela manhã, devem somar aos sons dos animais domésticos reclamando seu alimento. À noite, acompanha a movimentação e comunicação dos animais selvagens, seguindo-os, mentalmente a cada movimento daqueles que ele conhece. Sabe, também, de suas rotinas. Nos dias de neblina, pela manhã, ele se vê envolto em um manto esbranquiçado e observa de forma serena, a sua luta com o Sol. Nos dias de chuva forte, vê o seu riacho transformar-se em rio violento e caudaloso. Sabe, no entanto, que a água escoa rapidamente para o mar e que ele continuará ali, feliz e solitário. Estimulado, conta histórias, as suas histórias!
(Extraido de "Cadernos de Viiagem -Fim de Semana em Timbée do Sul"


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