O Espirito da Coisa
Professor, o que é espírito da coisa?
Com essa pergunta, o barbeiro Manuel, morador de um bairro da cidade de João Pessoa, surpreendeu ao senhor José, professor de Filosofia da Universidade Federal da Paraíba. José tentou dar ao barbeiro uma noção da expressão “espírito da coisa”. Para saber em que base dar a resposta à angústia do barbeiro, perguntou ao artista de tesoura, seu amigo, o “porque” do repentino interesse no assunto.
Professor José conhecia o barbeiro Manuel desde há muito tempo. Sabia que na sua barbearia eram repassadas e cruzadas muitas informações da cidade, enquanto ele afiava a navalha ou se inspirava ao som do “chic chic” da tesoura. Os clientes e amigos adoravam uma fofoquinha leve ou gozação de um ou de outro conforme o time da vítima tivesse perdido ou vencido uma partida de futebol. A vida dos ausentes –amigos ou não- era repassada e, até, de forma maldosa com uma boa dose de imaginação.
O barbeiro Manuel começava a ser notado por um partido político pela sua liderança pessoal, pela honestidade com que analisava os problemas do cotidiano da região e, também, por sua sabedoria.
Enquanto isso, o tal de partido, que andava com carência de sangue novo, convidou seu Manuel para assistir a umas palestras e debates de um grupo que andava pela cidade alertando o povo sobre umas coisas erradas que o governo estava fazendo. Na verdade o pessoal do partido já o vinha namorando e queriam fazer dele um político, começando pela casa legislativa do município. Manuel, afinal, era pessoa conhecida de todos e poderia render bons votos.
Um certo dia, de tanto insistir, o barbeiro Manuel atendeu ao convite do amigo e foi à tal reunião. A estrela da festa era um companheiro de São Paulo, levado para João Pessoa para dar uma mensagem ao pessoal da terra. Manuel foi e ouviu, atentamente, palavra por palavra, mas não conseguiu assimilartudo. Ficou consolado, no entanto, quando alguém, do meio da platéia, fez perguntas ao conferencista. Ele também ficara com muitas dúvidas na cabeça, mas não se sentiu com coragem de comentar nem ao amigo Joaquim que estava sentado ao seu lado.
Na primeira pergunta feita ao conferencista, Manuel entrou, mentalmente, na carona. O forasteiro, com palavras bem treinadas, respondeu: “O companheiro não entendeu o espírito da coisa”. Deitou mais meia hora de falação sobre teoria de uma porção de coisas e ninguém mais teve coragem de expor as demais dúvidas. Acabrunhado, Manuel, voltou ao seu salão. Lá, ele sabia o que fazia e entendia do que se falava.
Pois foi nesse meio tempo, ainda com a cabeça atrapalhada, que apareceu professor José e foi aí que ele resolveu tirar as dúvidas. Laçou, a queima roupa, a pergunta ao professor:
-Professor, o que é espírito da coisa?
-Manuel- disse o professor retomando o inicio da conversa e respondendo a pergunta do amigo- como é que eu vou te explicar? Espírito da coisa é aquilo que não foi dito com as palavras mas você entendeu como é. É a essência do que se quer realmente dizer. É o que é mas, não se pode explicar. É aquilo que realmente é.
-É... Manuel ficou na mesma.
-Me dá um exemplo, disse como forma de ajudar ao professor. Bem é...
-Entendi disse Manuel. Quer dizer que se alguém vier aqui na minha barbearia nem precisa dizer que veio para cortar o cabelo. O espírito da coisa é que eu sei que ele faz isso todo mês e ele nem tem que dizer isso.
É mais ou menos isso, Manoel.
Depois de alguns dias, dias quando se dirigia para casa, José passa pela barbearia para ver seu amigo. Para sua surpresa, encontra Manuel com a cabeça ainda mais enrolada. Dessa vez atacou de forma diferente.
- Professor, o que é Sociologia? O que é...
Naquele dia conversaram bastante e agora com mais motivação. Combinaram continuar a conversa sobre esses temas que, para Manuel, nesse momento representava muito. José, a pedido de Manuel, comprou alguns livros de Sociologia e levou para Manuel que prometeu ler antes mesmo da nova reunião do grupo que agora já não contava mais com o pessoal de fora. Marcaram encontros na casa do Professor José para não ter que esperar o dia de fazer serviços na barbearia. Nesses encontros, Manuel ouvia atentamente o que dizia o professor!
No primeiro encontro, já com os livros debaixo do braço, Manuel foi logo dizendo que havia lido as folhas chamadas de prefácio, mas não tinha entendido muito bem e que já havia participado de mais uma reunião do grupo.
-E como é que foi a reunião? Perguntou o professor diante do entusiasmo de Manuel.
Manuel antes da reunião havia anotado algumas palavras e frases e como se sentisse com coragem, atirou na reunião do grupo! O pessoal ficou entusiasmado com o que Manuel disse. Os comentários, depois da reunião, foram de que ninguém perguntara nada porque não queriam mostrar que não estavam entendendo. Com o tempo, Manuel foi ficando com boa fama. Quando as pessoas tinham dúvidas, nas reuniões que se seguiram, consultavam o novo companheiro e ficavam contentes com as respostas. Relatou ao amigo José que as frases do livro tinham resposta para tudo.
Professor José deixou a cidade por algum tempo para fazer, na França, um programa de pós-doutorado. Quando voltou foi à barbearia do seu amigo Manuel e a encontrou de portas fechadas. Procurou saber com os vizinhos o que havia acontecido com seu amigo Manuel. Descobriu -já nas primeiras pesquisas - que ele já era vereador da cidade e que pensava, seriamente, em se candidatar a Deputado Estadual! E queria ir mais longe!
(Adaptação de um caso contado por um professor)
Com essa pergunta, o barbeiro Manuel, morador de um bairro da cidade de João Pessoa, surpreendeu ao senhor José, professor de Filosofia da Universidade Federal da Paraíba. José tentou dar ao barbeiro uma noção da expressão “espírito da coisa”. Para saber em que base dar a resposta à angústia do barbeiro, perguntou ao artista de tesoura, seu amigo, o “porque” do repentino interesse no assunto.
Professor José conhecia o barbeiro Manuel desde há muito tempo. Sabia que na sua barbearia eram repassadas e cruzadas muitas informações da cidade, enquanto ele afiava a navalha ou se inspirava ao som do “chic chic” da tesoura. Os clientes e amigos adoravam uma fofoquinha leve ou gozação de um ou de outro conforme o time da vítima tivesse perdido ou vencido uma partida de futebol. A vida dos ausentes –amigos ou não- era repassada e, até, de forma maldosa com uma boa dose de imaginação.
O barbeiro Manuel começava a ser notado por um partido político pela sua liderança pessoal, pela honestidade com que analisava os problemas do cotidiano da região e, também, por sua sabedoria.
Enquanto isso, o tal de partido, que andava com carência de sangue novo, convidou seu Manuel para assistir a umas palestras e debates de um grupo que andava pela cidade alertando o povo sobre umas coisas erradas que o governo estava fazendo. Na verdade o pessoal do partido já o vinha namorando e queriam fazer dele um político, começando pela casa legislativa do município. Manuel, afinal, era pessoa conhecida de todos e poderia render bons votos.
Um certo dia, de tanto insistir, o barbeiro Manuel atendeu ao convite do amigo e foi à tal reunião. A estrela da festa era um companheiro de São Paulo, levado para João Pessoa para dar uma mensagem ao pessoal da terra. Manuel foi e ouviu, atentamente, palavra por palavra, mas não conseguiu assimilartudo. Ficou consolado, no entanto, quando alguém, do meio da platéia, fez perguntas ao conferencista. Ele também ficara com muitas dúvidas na cabeça, mas não se sentiu com coragem de comentar nem ao amigo Joaquim que estava sentado ao seu lado.
Na primeira pergunta feita ao conferencista, Manuel entrou, mentalmente, na carona. O forasteiro, com palavras bem treinadas, respondeu: “O companheiro não entendeu o espírito da coisa”. Deitou mais meia hora de falação sobre teoria de uma porção de coisas e ninguém mais teve coragem de expor as demais dúvidas. Acabrunhado, Manuel, voltou ao seu salão. Lá, ele sabia o que fazia e entendia do que se falava.
Pois foi nesse meio tempo, ainda com a cabeça atrapalhada, que apareceu professor José e foi aí que ele resolveu tirar as dúvidas. Laçou, a queima roupa, a pergunta ao professor:
-Professor, o que é espírito da coisa?
-Manuel- disse o professor retomando o inicio da conversa e respondendo a pergunta do amigo- como é que eu vou te explicar? Espírito da coisa é aquilo que não foi dito com as palavras mas você entendeu como é. É a essência do que se quer realmente dizer. É o que é mas, não se pode explicar. É aquilo que realmente é.
-É... Manuel ficou na mesma.
-Me dá um exemplo, disse como forma de ajudar ao professor. Bem é...
-Entendi disse Manuel. Quer dizer que se alguém vier aqui na minha barbearia nem precisa dizer que veio para cortar o cabelo. O espírito da coisa é que eu sei que ele faz isso todo mês e ele nem tem que dizer isso.
É mais ou menos isso, Manoel.
Depois de alguns dias, dias quando se dirigia para casa, José passa pela barbearia para ver seu amigo. Para sua surpresa, encontra Manuel com a cabeça ainda mais enrolada. Dessa vez atacou de forma diferente.
- Professor, o que é Sociologia? O que é...
Naquele dia conversaram bastante e agora com mais motivação. Combinaram continuar a conversa sobre esses temas que, para Manuel, nesse momento representava muito. José, a pedido de Manuel, comprou alguns livros de Sociologia e levou para Manuel que prometeu ler antes mesmo da nova reunião do grupo que agora já não contava mais com o pessoal de fora. Marcaram encontros na casa do Professor José para não ter que esperar o dia de fazer serviços na barbearia. Nesses encontros, Manuel ouvia atentamente o que dizia o professor!
No primeiro encontro, já com os livros debaixo do braço, Manuel foi logo dizendo que havia lido as folhas chamadas de prefácio, mas não tinha entendido muito bem e que já havia participado de mais uma reunião do grupo.
-E como é que foi a reunião? Perguntou o professor diante do entusiasmo de Manuel.
Manuel antes da reunião havia anotado algumas palavras e frases e como se sentisse com coragem, atirou na reunião do grupo! O pessoal ficou entusiasmado com o que Manuel disse. Os comentários, depois da reunião, foram de que ninguém perguntara nada porque não queriam mostrar que não estavam entendendo. Com o tempo, Manuel foi ficando com boa fama. Quando as pessoas tinham dúvidas, nas reuniões que se seguiram, consultavam o novo companheiro e ficavam contentes com as respostas. Relatou ao amigo José que as frases do livro tinham resposta para tudo.
Professor José deixou a cidade por algum tempo para fazer, na França, um programa de pós-doutorado. Quando voltou foi à barbearia do seu amigo Manuel e a encontrou de portas fechadas. Procurou saber com os vizinhos o que havia acontecido com seu amigo Manuel. Descobriu -já nas primeiras pesquisas - que ele já era vereador da cidade e que pensava, seriamente, em se candidatar a Deputado Estadual! E queria ir mais longe!
(Adaptação de um caso contado por um professor)

